Essa é uma pergunta que passa pela cabeça de muitos donos de pets. Na verdade, muitas vezes não é uma pergunta, é uma afirmação que logo vem seguida da resolução: vou achar um(a) namorado(a) pro meu pet!
A imensa maioria é movida tão somente pelo desejo de “perpetuar” aquele animalzinho tão especial. Outros, além disso, buscam presenciar o “milagre da vida” ao decidir que seu pet precisa se reproduzir, afinal, ninguém (inclusive os animais) é completo enquanto não tem filhos, certo?
Devo dizer… Errado.
Há centenas de razões – fruto da opinião comum – que podem pautar uma decisão como esta. Quando isso envolve animais de raça definida, principalmente raças que estão na moda, é ainda mais difícil. O proprietário acha que fará bem, que a cachorrinha linda vai parir filhotes lindos que serão doados a quem vai “cuidar bem” e todos serão felizes para sempre. Seria ótimo se fosse verdade!
A idéia desse artigo é servir como um guia rápido de perguntas e respostas que todos os proprietários de pets deveriam fazer a si mesmos antes de decidir procriar seus animais. As perguntas vão das mais comuns à outras que podem não passar pela cabeça pois é difícil imaginar que muitas vezes nós fazemos parte (ou a nossa parte!) de um problema maior.
Espero que possa ajudar aos leitores a cuidar melhor dos nossos amigos de quatro patas.
1. Quero que meu pet tenha filhotes porque eu ficarei com um. Faço questão de ter um descendente dele!
Muito bem, saiba que você não está sozinho nessa! Quem não quer perpetuar aquele animalzinho tão maravilhoso que parece entender o que falamos, que é super educado, lindo, fofo?! Todos queremos, não é mesmo?
Seria ótimo se fosse possível, mas não é. E não é porque como todas as criaturas vivas, não há um animal igual ao outro. Esse bichinho que você tem é único, e ainda que você encontre outros que pareçam com ele física ou psicologicamente, nunca haverá um igual. Ou seja, permitir que seu animal procrie com a idéia de ter um filho dele que se pareça com o pai/mãe é sem dúvidas um equívoco.
Pense também no seguinte: se seu pet tiver filhotes e você ficar com um (e a este você poderá garantir a segurança, conforto e cuidados que forem necessários), como poderá garantir que os outros irmãozinhos dele também tenham?
Será que haverá lares que possam assumir o enorme compromisso que é cuidar daquela vida que você planejou vir ao mundo por pelo menos 15 anos? Como garantir que o novo dono cuidará dele como deve por toda a vida, que terá condições, que não precisará se mudar para um lugar menor e abrir mão dele? E mesmo se sim, essa pessoa cuidar direitinho pela vida toda… Será que ela terá o mesmo cuidado que você teve com os filhotes deste filhote? Acredite, é impossível controlar isso.
Será justo que tantas outras vidinhas venham ao mundo somente para que você fique com um filhote que não será uma cópia do seu pet?
Se você se identifica com a raça do seu pet (se ele tiver uma), que tal adotar um da mesma raça que precise de uma casa? Isso é possível e há muitos grupos de resgate de animais de raças específicas ou pessoas que estão doando os seus pelas mais variadas razões. Acredite, mesmo os animais que são das raças mais caras são abandonados e descartados e estão esperando um lar como o seu.
2. Ouvi dizer que as fêmeas precisam ter cria pelo menos uma vez na vida bem como os machos tem que cruzar pelo menos uma vez, isso é verdade?
Não, isso definitivamente não é verdade. Criatura alguma precisa ter filhotes, e exceto pelos humanos, todos os outros seres vivos procriam somente por instintos de preservação da espécie. Mesmo assim você se perguntará: mas e a natureza? Na natureza os animais procriam! A isso respondo que não é bem assim.
Para ter uma idéia, numa matilha de cães somente um macho cobre as fêmeas (sadias), ou seja, não são todos os que podem procriar porque um instinto básico é a busca de indivíduos cada vez mais fortes tanto física quanto psicologicamente. Na natureza, um cão medroso, ou assustado, ou agressivo jamais procriaria.
Entre os felinos essa regra é ainda mais restrita porque numa matilha de cães podem coexistir diversos machos sob o “comando” de um único alfa mas entre os gatos não é assim que funciona.
Gatos não vivem em bandos ou em grupos preferindo a vida solitária ou sem dividir seu território com muitos outros, principalmente machos. Desta forma, um macho “fraco” (mirrado, pequeno, medroso) não só não perpetuará seus genes como dificilmente viverá muito já que acabará se encontrando com machos mais fortes que são capazes de brigar até a morte por um território ou uma fêmea.
A maioria das pessoas quando tem o impulso de cruzar um pet com outro dificilmente se preocupa com coisas como saúde além da aparente (os mais fortes são primeiramente os mais sadios), buscando somente a aparência ou tamanho. Ou seja, a natureza passa longe! Isso sem contar que as raças (tanto de cães quanto gatos) são fruto da intervenção humana, ou seja, nada de natureza mais uma vez.
Sendo assim, se seu pet tiver raça definida ou não, tenha em mente que ele não tem desejos, tem instintos. Seu corpo, assim como de todos os outros seres vivos, prepara-se para gerar descendentes porque é assim que as espécies se fixam mas isso não significa que ele tem que gerar principalmente porque seu pet não é de uma espécie em extinção, não é mesmo?
3. Meu pet é de raça. Como procurar um parceiro para ele cruzar?
Muitas são as pessoas que fazem anúncios oferecendo seus animais para procriação. Em grande parte deles é possível notar que os proprietários tratam seus animais, nessa situação, de maneira humanizada.
Dizem que seus animais precisam de um namorado, ou que seu pet é virgem. Ora, isso é coisa de humanos, não de animais! São conceitos que se aplicam a nós humanos, e é assim porque carregam um ASPECTO que não existe entre os animais: o moral. Lembre-se, animais procriam-se por instinto.
O fato de seu pet ter uma raça definida não significa que ele precise, deva ou possa procriar. Sobre ele precisar procriar, já falamos logo acima. Sobre dever procriar, o conceito é basicamente o mesmo que precisar, mas com o agravante de que a há uma quantidade gigantesca de animais no mundo precisando de um lar, e há animais abandonados que são da mesma raça do seu. Já sobre poder procriar, além de tudo o que já falamos há um ponto ainda mais importante: mesmo tendo raça definida, será que o bichinho que você ama tem saúde (física e psicológica) além de conformação adequada que justifiquem que ele deixe descendentes?
Principalmente raças da moda (gatos persas, siameses, cães de raças pequenas como Poodle, Pinscher, Lhasa Apso, Shih-Tzu) ou populares (Golden Retriever, Rottweiler, Pastor Alemão) estão sujeitas a doenças genéticas comuns às raças e que são intensificadas quando começam a ser procriados animais que parecem sadios mas não são.
Veja essa linda cadela da raça Golden Retriever, ela se chama Flora.

Flora GTrip da Terra dos Gigantes, propr. Asline e Cristiano
Ela é linda, não é? Certamente teria filhotes lindos com outro cão da mesma raça. Tem pedigree e ainda filhotinha participou e venceu muitas competições de beleza.
O problema é que essa cachorrinha tem uma doença chamada Displasia em grau severo e por essa razão foi esterilizada. É uma doença degenerativa, dolorosa e cada vez mais comum na raça. Em alguns meses ou com sorte poucos anos ela não mais poderá andar porque tem uma “folga” no encaixe das patas traseiras na bacia. Ela herdou essa doença geneticamente, mas só de olhar ninguém pode dizer que ela é portadora. Já pensou se seus proprietários resolvessem cruzá-la só porque ela é “de raça”? Os seus descendentes carregariam o gene da doença e alguns certamente a desenvolveriam. O exame que detectou seu problema tem um custo elevado, e os medicamentos que ela tomará a vida toda também.
Veja esse maravilhoso gato persa, o Sossego. Dá para olhar para as fotos dele durante horas e pensar que ele teria filhotes maravilhosos!

Sossego, in memorian, dos amigos Ricardo e Kariane.
Esse gatinho já faleceu. Ele era portador de uma doença comum em persas chamada PKD, ou Síndrome do Rim Policístico, que é herdada geneticamente, e foi esterilizado ainda filhote (antes que seus donos soubessem do problema dele, afinal, a idéia era de ter um pet sem fins reprodutivos). Com o tempo, cistos vão tomando conta dos rins que param de funcionar, em resumo. Isso é doloroso e definha o animal aos poucos. Nenhum ser vivo merece nascer fadado a isso, não é mesmo? Porém, se os donos dele o tivessem cruzado somente porque ele tem raça definida, todos os seus descendentes teriam o mesmo problema que ele.
Citei esses dois exemplos somente para ilustrar o conceito de maneira bem rápida. Há, além dessas doenças, dezenas de outras tão ou mais comuns que poderiam ser evitadas com uma atitude simples: não procriar animais portadores. Na dúvida, jamais procriar.
Ou seja… A tarefa de buscar um “namorado(a)” para seu pet é algo que não vai funcionar por uma razão muito simples: há dezenas de outros pensamentos que devem vir antes disso quando agimos com responsabilidade, além da imensa quantidade de pets de raça disponíveis para adoção. A solução é não procriar o seu pet.
Tudo aquilo que não podemos prever é acidente, mas quando podemos prever e não o fazemos, é negligência.
4. Meu pet não tem raça definida, mas eu quero cruzá-lo mesmo assim. Como fazer?
Antes de qualquer coisa é preciso compreender que um animal de determinada raça tem características físicas e comportamentais previsíveis, e mesmo assim são singulares. As raças são frutos de um trabalho genético longo e dedicado de criadores sérios que carregam uma bagagem de estudo e tempo muito grandes para garantir que aqueles animais tem as características que devem ter, além de ter saúde.
Quando animais de raças diferentes são cruzados, o que temos são mestiços, ou seja, um pouco de uma coisa misturado com um pouco de outra que não sabemos qual resultado terá. Se você tem um “mestiço de persa com SRD” saiba que o que você tem é um gato sem raça definida.
Quando tem um mestiço de poodle com buldogue, você tem um autêntico e lindo SRD. Não adianta pegar esse seu SRD e cruzar com um buldogue ou um poodle na intenção de ter um cão “de raça” pois não vai funcionar já que cada uma dessas raças foi desenvolvida com um intuito diferente. Poodles hoje são cães de companhia mas foram desenvolvidos para buscar trufas (cogumelos), já os buldogues também são cães de companhia hoje em dia, mas foram desenvolvidos como gladiadores.
Se você tem um cão e não sabe de que mistura ele veio (e a imensa maioria veio de muitas e muitas), então você sabe o que ele se parece (pequeno, grande, bravo, tranquilo, preto, roxo) mas não sabe o que ele carrega geneticamente. Se carrega alguma doença genética, se vai gerar filhotes medrosos, ou agressivos, além de dificilmente gerar um filhote como o seu pet.
Porém, pior do que isso tudo é que já existem trilhões de SRDs no mundo fadados ao abandono e não há lares para todos. Há SRDs de todas as cores, tamanhos, personalidades. Por qual razão colocar mais cães num mundo já super lotado?
Como a resposta anterior, a solução é não procriar o seu pet.
5. Tenho um casal de cães/gatos e é difícil separá-los quando a fêmea está no cio. Como fazer?
Com a correria diária da vida, muitas vezes não achamos tempo nem para dar uma volta no quarteirão com o nosso cãozinho ou passar alguns minutos brincando de bolinha com o nosso gato, não é mesmo? Quem dirá então prestar atenção necessária para evitar que eles cruzem!
Além do trabalho e tensão que manter separados um casal de pets quando a fêmea está no cio dá, há o mais pesado que é o stress que o animal passa porque seu instinto é de cruzar, mas eles são impedidos (corretamente).
Em cães, o macho pode ficar irritadiço ou agressivo e a fêmea pode perder peso e ter alguma doença oportunista pela baixa da imunidade que o cio sem cruza traz, além de pseudociese (gravidez psicológica) que é dolorosa e perigosa (fêmeas que entram no cio e não cruzam podem desenvolver com os anos piometra, câncer de útero e/ou mamas , entre outras doenças).
Em gatos é um pouco pior. Machos inteiros quando atingem a maturidade sexual tendem a borrifar urina em diversos lugares para demarcar seu território além de tornarem-se mais agressivos, e as fêmeas tendem a não sair do cio enquanto não forem cobertas pelo macho, além da possibilidade enorme em desenvolver câncer de útero e mamas. Isso tudo sem contar a “cantoria” famosíssima dos gatos em idade de acasalamento!
Há no mercado as famosas “vacinas anti-cio”, mas elas são verdadeiras bombas hormonais que na esmagadora maioria dos casos causam câncer em cadelas e gatas mesmo que seja dada uma única dose. Nenhum veterinário ético indica ou aplica essas injeções pois os efeitos colaterais são brutais, jamais permita ou aceite esse tipo de alternativa.
Num caso como este, o mais correto é a esterilização de um dos pets ou de ambos. Atualmente tanto o custo da cirurgia quanto os cuidados pós-operatórios diminuíram muito com técnicas cirúrgicas cada vez mais precisas, valendo-se de incisões menores e menos invasivas.
Machos acordam da anestesia como se nada tivesse acontecido. As fêmeas precisam de mais dois ou três dias para a recuperação, mas ainda assim é praticamente livre de riscos e stress.
6. É verdade que a esterilização evita câncer?
Sim, é verdade. O câncer acomete em sua maioria as fêmeas (útero e mamas), mas há também câncer de testículo que é evitado ao castrar os machos.
A esterilização é importante porque evita crias indesejadas, stress do cio (tanto para a fêmea quanto para o macho que não tem cio mas está sempre pronto para cobrir fêmeas no cio) e ajuda com alguns problemas comportamentais como demarcarção de território e brigas.
Seu cãozinho não deixará de ser macho por ser esterilizado! Ele será o mesmo amigo de sempre, com energia e alegria e, claro, menos stress por não ter mais os instintos de procriação.
Sua gatinha não deixará de ser boazinha se for castrada, pelo contrário! Ela ficará mais manhosa sem os cios constantes.
Esterilizar seu pet é um ato de amor! Pense nisso.