Nós, imperfeitos
Essa semana o Arthur me mordeu.
Mordeu bem forte mesmo, duas vezes em minha perna. Trouxe um gatinho do projeto que começou a miar desesperadamente e o Arthur, que odeia outros gatos, tentou atacá-lo e, errando o alvo, cravou as presas com força em minha perna.
Mas, lógico que não foi a primeira vez. Quando era mais novo fazia isso, de brincadeira. É isso que acontece com filhotes que não tiveram a oportunidade de conviver com a mãe e os irmãos, que não aprenderam a não machucar.
As mordidas na perna doeram muito, ficou inchado. Mas quando retornei para casa horas mais tarde, ele deitou-se do meu lado de barriga para cima, calmo e sereno. Não acredito que animais pedem desculpas pelas coisas erradas que fazem. O Arthur estava apenas agindo como o gato – temperamental e territorialista –que é. Minha perna só estava no lugar e na hora errada.
Já levei coices, tive dedos quebrados por um cavalo empinando – e sinto incômodo até hoje – fui arranhada e mordida por gatos. Já fui perseguida por cães. Animais não são maléficos ou traiçoeiros, eles apenas se comportaram como seu instinto respondeu naquelas situações.
Mas por causa desse incidente bobo escutei coisas absurdas, como punir o Arthur fisicamente pelo que ele fez e, a pior de todas as frases, eu deveria tê-lo “jogado fora” pelas mordidas.
E aí eu me pergunto… onde está o amor? Então tudo o que esse gato representa e me trouxe de bom nesses últimos 5 anos não vale de nada diante desse único episodio?
Me distancio de pessoas que não adicionam nada em minha vida, me distancio de quem me magoa ou decepciona de propósito. Se nem de meus semelhantes pensantes posso esperar perfeição, por que eu iria cobrar e punir este momento do Arthur?
Ele é o amor da minha vida, mas ainda é um gato. E irá reagir e ter a liberdade de agir como tal ao meu lado.
Acredito que as pessoas cobram demais de seus bichos. Compram ou adotam aquele filhotinho branco, peludo e de olhos azuis, esperando um leque infinito de qualidades, que esperam dos outros, de si mesmos, se esquecendo que o animal não é uma extensão, mas um ser próprio e singular. O cão irá latir de madrugada, o gato irá arranhar algum lugar, o papagaio de estimação poderá sujar seus moveis e o cavalo que você tanto ama irá te dar um coice ao se sentir ameaçado. Isso não significa que ele odeie você, isso apenas demonstra que ele é um bicho.
O Arthur veio para minha casa, das ruas, com quase 1 ano de idade. Me preparei para dias infernais, com um gato barulhento, sujando a casa, rasgando o sofá, roubando comida das panelas e tudo o mais de errado que a vida nas ruas poderia ter influenciado nele.
Mas ele é um príncipe. Nunca fez nada de errado. NUNCA.
Ele se adaptou tão bem a nós e a nossa casa, como se o seu lugar sempre fosse – e é – ao nosso lado.
Não é isso o mais importante ao trazermos um bichinho para nossa família? Que exista cumplicidade e afeição genuína? Que aquela cauda que abana e derruba coisas esteja feliz apenas por chegarmos em casa? Que aquelas garras que desfiam nossa calça estejam, na verdade, pedindo atenção e nosso carinho? Aquela pata peluda em nosso rosto, às 5:30, está apenas solicitando um espacinho em nossa cama.
O olhar verde mais lindo do mundo não parou de me fitar, sem julgamentos, mesmo nos piores momentos.
Não somos perfeitos, eu e o Arthur.
Mas aqui não haverá abandono. As promessas sussurradas não serão desfeitas.
Entre nós existe amor. E isso é o mais importante, sempre.
“As coisas mais belas nunca são perfeitas.”






















