Rocky, o lutador

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Perto da minha casa há uma praça habitada por gatos ferais. Várias vezes já tentei pessoalmente capturar um ou outro, mas os bichinhos fogem feito raios do contato humano. No ano passado, antes do nascimento da Confraria, Tatis e eu participamos com a colega Cristiane Amódio, da ONG Adote Já, de uma captura a alguns desses gatos. Para vocês terem noção de quão difíceis eles são, levamos 4 horas para capturar somente 3 gatos, os mais amistosos do grupo. Felizmente eles puderam ser adotados, mas percebemos com isso que os gatos da área não se adaptariam na marra ao convívio humano. Planejamos uma captura e castração em massa dessa galerinha, com devolução de todos ao seu local de origem, para ao menos controlar a população de gatos da região, mas… falaremos disso mais adiante.

Na sexta-feira de manhã uma das gatas do local deu à luz no quintal de uma casa desocupada. Como minha sogra está entre as pessoas que alimentam os gatos da praça, uma vizinha que viu o filhote recém-nascido sozinho no jardim teve a pachorra de comunicar à minha sogra que “ela devia pegar o gato, pois se ele ficasse lá iria morrer”. Agora eu me pergunto, por que essa pessoa, se estava tão “preocupada”, não teve a decência de recolher ela mesma o gato? Como é que a responsabilidade passou a ser de outra? É a nossa cultura preguiçosa de achar que tudo se resolve com um simples telefonema. Enfim…

Minha sogra não estava em casa nessa hora. A faxineira dela só pôde falar comigo lá pelas 14 horas, quando fomos ver se o bichinho ainda estava ali. E estava: minúsculo, todo sujo de terra, ainda ligado à placenta, coberto de moscas e exposto ao sol por horas e horas. Quando o vi, tomei-o por um cadáver. Mas o gatinho de mexeu…

Com a ajuda de um pedreiro abençoado que o pegou com uma pá (não alcançávamos o gatinho pela grade da casa), a faxineira que o amparou numa tigela com paninhos – a única coisa que tínhamos à mão, um veterinário que gentilmente o separou da placenta sem cobrar um tostão e minha supersogra que me levou até o único pet shop onde sabíamos que acharíamos o leite em pó para gatinhos, consegui levá-lo para minha casa.

Por alguma razão que não nos compete julgar, a própria mãe desistiu dele assim que o pôs no mundo. Gatas às vezes fazem isso, antecipando o processo de seleção natural. Qualquer que tenha sido a razão, o gatinho não desistiu. Contra toda expectativa, sobreviveu sozinho e com fome por horas debaixo do sol cruel que fez na sexta-feira. Ele queria viver. Ele merecia viver. Já na minha casa, só por ter ficado sozinho por menos de 3 horas (recém-nascidos têm de mamar de 2 em 2 horas), o bichinho teve a capacidade de escapar da caixa que lhe servia de leito e se arrastar às cegas do banheiro até a sala através de um longo corredor, gritando, exigindo comida, exigindo viver. Por razões óbvias, ganhou o nome de Rocky Balboa.

Como a minha vida profissional exige que eu fique fora de casa por muitas horas, e o bichinho poderia morrer se deixado sem alimentação por tanto tempo, não tive alternativa senão passar a bola para a Tatis, que, apesar de todas as responsabilidades que já tem, aceitou cuidar dele com o auxílio de dois familiares nota 10 que dão a maior força com os bebês gatinhos. Obrigada, Tatis, do “fundo do fim” do meu coração por ter aceitado mais este na sua Ala VIC, permitindo que ele tenha a chance de viver, pela qual tanto lutou.

E ele VAI viver, vocês não tenham dúvida.



One Response to “Rocky, o lutador”

  1. Mila disse:

    É verdade, Marisa, se não fosse a Tati poder cuidar do bonitinho eu não sei o que faria, pois passo tempo demais fora de casa e só por um milagre (mais um!) ele sobreviveria a isso, rs.
    Fiquei com ele por apenas 2 dias. Além da sua resistência, outras duas coisas foram muito emocionantes: a primeira, quando, depois de muito gritar, mamar, rejeitar a seringa com leite, mamar de novo, ser lavado e finalmente ficar quietinho (rs!), ele começou a RONRONAR na minha mão. Com 1 dia de vida, gente! E a outra coisa emocionante foi quando consegui tirar dele o primeiro jatinho de xixi e cocô, huahahahah! Gatinhos bebês precisam que a mãe lhes massageie o bumbum com a língua para que façam suas necessidades. Na falta da mãe, vai um algodãozinho molhado, rs.
    Ele é simplesmente impressionante em sua ânsia de viver. Ele é brasileiro e não desiste nunca!

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