O Companheiro Que Chegou do Nada
Prezados leitores do nosso blog,
O texto abaixo foi publicado este mês e, infelizmente por sua veracidade, serve de alerta para muitos, como já dissemos, sobre os riscos que envolvem rações ditas “premium” que podem levar nossos companheiros… Para leitura e reflexão!
Aproveitamos para agradecer ao Sérgio, autor do texto, que nos autorizou a publicá-lo aqui no nosso blog.
O Companheiro Que Chegou do Nada (por Sérgio Becker)
Eu o vi pela primeira vez por acaso: estava ele andando despreocupado na rua, entre carros a toda velocidade. Calmo, incompreensivelmente inabalável. Sumia uns tempos, voltava, voltava a sumir. Um belo dia, aproximou-se de minha casa sem ser chamado, sem convite, como se já soubesse que lá era seu lugar.
Nunca tinha convivido com gatos e não seria agora que pensava fazê-lo. Fiz pouco caso de sua permanência em minha porta. Mas a mensagem ainda não havia sido entendida por mim: eu é que já tinha sido adotado!
Pouco a pouco, Freddy – era este seu nome – tornou-se precioso, vital. Como na música de Chico Buarque, “me chegou como quem chega do nada/ele não me trouxe nada, também nada perguntou/ foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não/ se instalou feito um posseiro dentro do meu coração…”.
Descobri, ao longo de 11 anos de convivência, que gatos são leais e solidários, não submissos. Você seguramente já viu, nos antigos e cruéis circos que usavam animais como atração, elefantes dançando, cães de saiote, tigres e leões rugindo ao som de estridentes chicotes. Gatos, jamais.
Gatos têm uma dignidade que está acima de ameaças, castigos ou oferta de comida. São seres únicos, com aguçada perspicácia. Entendem o que se diz: olhe dentro de seus olhos e você verá a chama da inteligência. São ágeis, belos, sofisticados. Nas palavras de Artur da Távola, gatos são “poemas ambulantes”.
Desenvolvimento humano pode ser aprendido sem livro, sem escola, sem manuais. Criaturas especiais como a que tinha a meu lado comprovam isso. Ensinam e praticam a amizade pela amizade, o carinho desinteressado, a elegância do silêncio, a independência e o respeito à privacidade própria e do outro, a eterna curiosidade de olhar, tentar, brincar, o estar aberto para o novo, o viver cada minuto sem pressa mas intensamente. O poeta romântico inglês Lord Byron dizia que o gato possui beleza sem vaidade, força sem insolência, coragem sem ferocidade. Enfim, dizia ele, possui todas as virtudes do ser humano ideal.
Por infelicidade, descobri tardiamente os estudos afirmando que determinadas rações contribuem para a obstrução das vias urinárias dos gatos. Pensava estar alimentando meu amigo quando, na verdade, acumulava condições para sérios problemas futuros. Voltei hoje da clínica veterinária sem meu parceiro de mais de uma década. Torci muito por ele, mas gatos não têm sete vidas. Pena.
Estou triste, não infeliz: mais que uma companhia, ganhei um companheiro, desses que existem poucos na vida da gente. Obrigado pelo privilégio de ter convivido com você, Freddy.
Sérgio Becker é Educador, Palestrante e Diretor Geral da Unigente Consultoria em Desenvolvimento Humano (www.unigente.com)
Jamais vou esquecer o dia do primeiro pires de leite do Freddy…
Que artigo maravilhoso!