Desabafo

Oi Pessoal,

Ainda estamos em clima de festa com o sucesso da feira do fim de semana passado. Foi tudo muito produtivo não só pelo lado financeiro (ainda não terminamos de apurar o que arrecadamos, mas certamente cobriu nossa arrecadação de pelo menos um mês e meio) mas principalmente porque consolidou as relações que fazem da Confraria o que ela é: pessoas totalmente envolvidas e comprometidas em prol de uma causa em comum. Isso não tem preço :-) )

Mesmo assim o tempo não para. As boquinhas estão aqui esperando por alimento e medicação, os sadios estão aqui implorando por atenção da gente e por um lar definitivo, e é por esta razão que nos movemos diariamente, todos nós, para fechar o ciclo que iniciamos com o resgate: a adoção definitiva dos gatinhos.

Pessoas que me conhecem podem atestar o tamanho do meu respeito pelo gosto das pessoas quando procuram um gato para adoção. Respeito quem quer os verdes, os roxos, os azuis. Os amarelos, os tortos, os cegos, os temperamentais. Os filhotes, os adultos. Os persas, os maine coons, os ‘sianeses’. Pior é que eu respeito mesmo, porque só cabe a mim é assegurar que seremos capazes de escolher um lar onde o bicho seja amado, protegido e desejado… O que quer que tenha feito o adotante escolher aquele gato X, só o que me importa é a certeza – a maior possível – de que aquele bichinho terá uma vida legal, longa e segura.

Há alguns dias eu postei uma foto onde dizia que daria um doce a quem adivinhasse quantos gatos havia naquela foto. Não entrei em nenhum detalhe, pois aqueles bichinhos vieram na quarta-feira passada e estávamos na pilha por conta da feira.

‘Descontando’ as pessoas que se manifestaram no blog candidatando-se a adotar os bichanos, recebi a bagatela de DEZOITO e-mails de pessoas querendo ‘duas feminhas’ como quem pede um pastel de carne na feira. Não pude deixar de me surpreender por não ter recebido – salvo uma única pessoa – nenhuma pergunta sobre como eles apareceram, de onde vieram, se estavam sadios, se precisavam de algo. Impressionante.

Nem o fato de ser possível identificar sem esforço mais de sete filhotes mamando numa mãe minúscula fez com que as pessoas que me contataram por e-mail demonstrassem alguma preocupação com eles. Ok, são todos siameses. Ok, eu esperava que fosse fácil doá-los (e de fato é). Mas não, eu não esperava que mesmo antes de mencionar que estavam conosco, que vieram de um lugar medonho, que naquela foto haviam DEZ filhotes de TRÊS ninhadas diferentes e que estavam sendo amamentados por uma gata que pesava 2,5kg já haveria fila de adotantes para eles.

Nunca disponibilizamos gatinhos para adoção imediatamente quando chegam porque nunca sabemos se vão ficar bem. Sempre aguardamos uns dias para saber se estão sadios, se precisarão de tratamento, de algo especial. Isso é fundamental, gente. Por esta razão – e pela falta de tempo em especial nesta semana que passou – eu não falei nada sobre eles, mas agora vou dizer pois sei que quem acompanha o que a gente faz gosta de saber das nossas ações.

Esses gatos chegaram vindos de uma protetora que fez um resgate enorme. Nada me tira da cabeça que foram retirados de um criadouro falido, pois como comentei eram dez filhotes de três ninhadas diferentes (quando chegaram, uma de 5 dias, outra de 10, outra de 25). Todos são siameses, e a ‘mãe’ (que nem sei dizer se é a mãe que pariu algum deles) também é.

Todos esses gatinhos chegaram com secreção nos olhos. Todos eles com subpeso, desidratados. A mãe mal saía da caminha não somente por ser uma mãe incrível, mas também por um estado de pré-inanição: ela amamentava os babies sem ter ela própria com o que sobreviver.

É muito difícil que gatinhos tão minúsculos sobrevivam numa situação dessas. Mesmo assim, e na mesma noite que chegaram, eu e a Dani saímos para comprar tudo o que precisavam: suplemento para a mãe, ração super para filhotes, tapetinhos higiênicos, leite, chuquinhas, todos os tipos de patês e sachês hipercalóricos. Munidas do que era materialmente necessário, viemos para a missão quase impossível de conseguir cuidar deles como uma mãe sadia cuidaria, sempre com o pensamento de salvar tantos quantos conseguíssemos – ainda que desejando profundamente que fossem todos.

Mesmo dando o melhor de nós, mesmo prestando atendimento veterinário, mesmo fazendo todo o possível, hoje o primeiro filhote nos deixou. Eu já tinha escolhido os nomes deles todos, mas até então não quis batizá-los – acho que com a sensação de que só deveria fazer isso quando eles estivessem à salvo.

Com o tempo a gente vai aprendendo a identificar alguns sinais. O bebê que nos deixou hoje estava já respirando pela boca, com a cabeça forçada para trás. Dos olhinhos dele saiu quase uma colher de café cheia de secreção. Hoje à tarde ele virou estrelinha, e eu já estou me vendo despedaçada como sempre fico quando perco filhotes dessa forma.

Os maiores foram vermifugados hoje e medicados para a possível infecção que todos devem ter. Estavam abatidos, mas mesmo assim comeram – forçados, mas comeram. O da ninhada do meio é um touro de forte – e o único que chamo pelo nome, “João Grandão” -, berra pelas tetas da Amélie que é a mãe postiça deles – Amélie já tem dono e irá para a casa nova no final do mês, mas ela é um caso à parte. Hoje disse a ela mil vezes que ela é minha heroína, pois generosamente acolheu todas aquelas crianças que a outra mãe já não dava mais conta. A outra mãe chama-se Cibele, e ela hoje cuida de 3 babies – os mais velhos – enquanto Amélie cuida dos demais. Amamenta, aquece, limpa, ensina… Tudo com uma paciência e um amor que de tão grandes quase posso tocar com as mãos. É maravilhoso ter a chance de conviver com uma criatura como Amélie, poder (re)conhecer o que é o amor em sua forma mais bruta e incondicional.

Um dos filhotes menores, a exemplo do irmão que virou estrela esta tarde, me parece ir na mesma direção. Eu espero estar errada, e espero que amanhã eles todos acordem melhores com a medicação e a carninha fresca que comeram agora à noite mas espero, mais do que qualquer coisa, que sejamos capazes de fornecer o suporte que eles tanto precisam nesse momento para que possam vingar. Desejo do fim do fundo do meu coração que eles resistam, que cresçam lindos, que vençam a infecção maldita que já tinham quando chegaram e que tirou a vida de um deles.

Enfim, é isso. Eu peço desculpas a todos pelo ‘peso’ do post, mas tem hora que dá um nó na garganta quando noto que tanta gente quer animais tão lindos, mas pouquíssimas são as pessoas que podem enxergar que antes de eles terem um lar, precisam sobreviver. E que tão importante quanto ter um lar, é ter saúde para chegar vivo até esta condição… O que sinceramente eu neste momento não sei dizer se todos alcançarão.

Um grande abraço e obrigadíssima por terem lido isso tudo,

Tatis.
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One Response to “Desabafo”

  1. Sônia disse:

    Tatis

    Hoje consigo entender toda a sua tristeza e indignação quanto a esses fatos. Acho que só quando você “vai a campo”, consegue sentir isso na carne, viu? Para a maioria das pessoas, por mais que gostem de animais, eles sempre serão os bichinhos fofinhos e brincalhões.

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