Artigo: por que tantas exigências para adotar um gatinho?!
Há algum tempo venho pensando neste assunto e hoje resolvi um artigo mais minucioso sobre ele: a razão de algumas exigências na doação de animais.
Alguns itens são auto-explicativos como: telas em todas as janelas em caso de apartamento, muros bem altos e portões que impeçam fisicamente a saída do gatinho, ração de qualidade, atendimento veterinário. Porém, esta é só uma parte do ato de adotar: essas são exigências mínimas que visam garantir a integridade física do gatinho que está por chegar.
Porém, tão importante quanto a integridade física é a psicológica. É aí que nossas condições já não são tão bem recebidas como as citadas anteriormente pois, num primeiro momento, soam como exageradas ou invasivas demais.
Tentarei dissecar uma a uma, mas sinta-se à vontade para comentar, perguntar, questionar ou pedir maiores informações sobre, ok?
- Não doamos gatinhos com menos de 4 meses para viver sem a cia de outro gatinho.

Por maior que seja nossa atenção e por mais que brinquemos com eles, há coisas que felinos só aprendem entre si. Tomo a liberdade de citar um trechinho do artigo “Medicina Comportamental: Agressividade” do Dr. Reginaldo Pereira, Medico-veterinário Especialista em clinica e cirurgia de felinos, Membro da Academia Brasileira de Clínicos de Felinos):
“A gata mãe e outros adultos, se presentes, têm papel importante na moderação do filhote; estes aprenderão a controlar a força das suas mordidas, aprenderão o que é a frustração, ou o “não” verdadeiramente dito, como nos períodos em que a mãe faz o desmame. Sem esse contato,o filhote pode se tornar bem impulsivo e nervoso.”
Tomo a liberdade desta citação pois além de ser imparcial vem de um especialista em felinos. Ou seja: por mais que a gente ame, aperte, brinque ou ralhe, quem vai realmente socializar um gatinho é um semelhante. É com outro que ele aprenderá a medir a força das brincadeiras e das mordidas. Quantos casos não lemos de gatinhos que são brutos ao brincar, que machucam e que mordem com força? Muitos. Isso certamente poderia ser evitado se o gato tivesse convivido com outro gato que pudesse lhe impor limites.
Quando doamos um gatinho, não nos preocupamos só com o agora: buscamos entregar um bichinho que possa se adequar à vida que lhe é oferecida e com o melhor que for possível. Queremos que ele seja o mais adaptável possível, que seja sociável e que o convívio com ele seja tão prazeroso quanto puder ser. É por esta razão que, pensando no futuro, optamos por nunca doar gatinhos tão novos para casas que não tenham outros gatos ou, caso não tenha, que o adotante não queira adotá-lo junto com um amiguinho.
- Caso o candidato a adoção escolha um gato por foto cujo temperamento sabemos não ser ideal para o perfil do adotante, não doamos.

No questionário de adoção há perguntas muito pessoais e que nos ajudam a concluir se o gatinho tem uma personalidade adequada à casa do adotante. COmo cuidamos muito de perto dos nossos gatos, sabemos exatamente o jeitinho de cada um deles. Diversas pessoas escolhem seus gatinhos por fotos e não há nada de errado com isso, mas é preciso respeitar também os limites dos dois lados. Muitas vezes aquele lindo gato azul não tem um temperamento adequado para conviver com crianças, por exemplo. Isso pode se dar por diversos fatores: pela personalidade, pelo histórico, pelo ambiente, etc. Sabemos – e respeitamos – que muitas adoções (bem sucedidas inclusive) acontecem porque o adotante ’sonha’ com um gatinho amarelo e busca um para adotar. Jóia, isso é legal sim, porém é preciso atentar para que esse animal corresponda às expectativas e ao ambiente que se tem a oferecer para ele.
Quando vetamos uma adoção por esta razão temos em mente que é nossa obrigação tentar acertar o máximo possível tanto para o gatinho quanto para o adotante e, neste caso, sempre buscamos indicar outras alternativas que mais se encaixem no estilo de vida tanto do candidato quanto do gato.
- Optamos por não doar animais para outros estados.

Isso também baseia-se na nossa experiência mas visa principalmente a segurança de estarmos por perto e podermos agir imediatamente caso algo dê errado. Sim, mesmo com todas as nossas exigências, coisas ruins acontecem.
Mesmo estudando o perfil do adotante e do gatinho, mesmo observando todas as regrinhas de bom convívio e segurança, pode ser que o adotante mude de idéia ou que algum problema surja com o gatinho na nova casa que leve o adotante a devolvê-lo. Se ele estiver em outro estado, como faremos para retirá-lo? E se precisar de uma intervenção nossa (muitas vezes esses entraves são problemas contornáveis com a nossa presença e dicas in loco sobre a adaptação), como faremos se estivermos longe? Não dá. Também por esta razão nossas adoções são somente onde nós podemos ir com relativa facilidade (São Paulo/Capital, cidades vizinhas e ocasionalmente Baixada Santista).
- Quando temos um gato onde apontamos que ele precisa ser filho único, ou seja, é geralmente um adulto cuja adaptação com outros já tentamos e não funcionou, não o doamos para quem tenha outros gatos.

Acreditem, muitas vezes perdemos adoções por não arriscarmos (mais!) uma adaptação que já sabemos não funcionar. Quando descrevemos que aquela linda gata branca lindíssima não tolera a presença de outros gatos, é porque tentamos por N vezes apresentá-la a outros, introduzí-la a outras sociedades felinas, sem sucesso. Quem é que quer ter um gato tão exigente? A gente não quer isso, mas quando acontece, respeitamos. O primeiro princípio de uma relação sadia é o respeito, não é? Então. Isso aplica-se também à nossa relação com os animais.
Pode ser que depois de anos adaptada num espaço a linda gata aceite outro filhote? Sim, pode mas a gente sabe que no stress da adaptação dela ao novo lar, num primeiro momento, isso não vai acontecer. Portanto, quando topar com um caso desses, saiba que a ONG não ganha nada mantendo um gatinho tão exigente em lar temporário e que a gente queria muito uma casa para ele, mas infelizmente não temos o direito de subemtê-lo a algo que vai além dos limites dele.
Lembre-se que nossas exigências se pautam tanto na nossa experiência quanto na atualização constante a que nos submetemos. Não são divagações, são posturas que tem também embasamento científico. Há quem se aborreça com tanta exigência e essas pessoas certamente conseguirão, de outros protetores ou mesmo de proprietários, adotar um gato em condições que nós recusaríamos. Não julgamos essas pessoas, afinal, cada um faz como lhe parece correto – dentro de um mínimo de bom senso -, mas saiba que seguindo algumas regrinhas simples, o convívio com seu novo amigo felino tem muito mais chances de ser o melhor possível.
Por enquanto é isso. Fiquem à vontade, como eu disse antes, para perguntar e comentar o que quiserem. Em breve escrevo mais sobre o tema.
Muito obrigada e até mais!
Tatiana.
P.S.: É permitido copiar esse texto desde que a fonte e o site sejam citados. Obrigada =o)
Olá
O trabalho que a Miados e Latidos vem realizando há mais de dois anos é exemplar. Claro que, como voluntário, procuro valorizar nosso trabalho. Porém sou bastante autocrítico e sempre que posso, e acho conveniente, dou minhas opiniões. Assim como fazem sabiamente todos os voluntários da Miados.
Um item de primeira necessidade (entre outros) para aquele(a) que se acha apto a ingressar no ‘mundo da proteção animal’: pensar no animal em primeiro lugar!
P.S. Tati, já te falei que você deveria escrever um livro sobre isso? Seria bastante útil! : )
Até mais
Cristiano