Pessoas,
Esse texto foi escrito pela Alessandra que junto com seu marido Adalberto, fazem lar temporário para os gatinhos da Confraria.
Inspirador… Vale a pena!
=========
Meu nome é Alessandra e eu e meu marido, o Adalberto, já estamos na Confraria há um bom tempo. Tudo começou com a vontade de adotar dois gatos, nossos queridos Henry Miller e Oscar Wilde. A necessidade de ter dois bichanos se transformou em algo muito maior, na obrigação de ajudar os bichos de rua, que acabou se transformando em uma família de dois humanos e treze bichanos e incontáveis filhos postiços que passaram por aqui e foram para casas muito boas. Algumas nem tanto assim, mas eles acabaram voltando aqui para a nave-mãe e, finalmente, encontrando seus lares definitivos.
Há muito tempo estou para escrever isso tudo, mas seja por falta de tempo, preguiça ou cansaço, sempre acabei protelando. Ainda assim, há dias em que tudo dá certo e em que a gente, seja lá no que acredite, acaba olhando para cima e agradecendo por ter se metido a ajudar. E digo isso porque passar pelo que já passei com os gatos que acolhi aqui em casa foi — e tem sido — além de uma experiência edificadora e gratificante, um exercício de felicidade.
Não nego que comecei a ajudar simplesmente porque queria ficar com filhotinhos aqui em casa, sem necessariamente ter que ficar com eles. A essa altura do campeonato já deveria ter uns… (pausa para pensar e contar quantos gatos tinha na época…) cinco gatos. Foi então que encontrei a Sra. Frida Kahlo em um anúncio na internet. Era uma gatinha sem uma pata e, como eu e meu marido temos coração mole, resolvemos adotar a criatura porque achávamos que ela ficaria “encalhada”. Na época ela se chamava Sunny e foi então que conhecemos a Tati e o Cris e a Confraria. Daí por diante ficamos amigos, nos tornamos protetores e começamos a oferecer lar temporário. Resgatamos n gatos aqui perto de casa, inclusive alguns ainda estão “encalhados” no LT da Major, em sua maioria filhotes.
Sim, é uma maravilha ter filhotes pela casa, correndo de lado, com rabo de espanador, subindo no pote de comida, rolando com os irmãozinhos por todos os cantos de onde quer que seja, mas nada se compara a pegar um gato adulto da rua, trazer para casa, alimentá-lo, levá-lo ao veterinário, socializá-lo e reabilitá-lo. Sim, nada se compara a esse tipo de felicidade. Os filhotes são uns amores. Todo mundo se encanta com aqueles olhões grandes e com aquelas cabecinhas desproporcionais. Agora, pegar um gato arisco, debilitado, praticamente sem condições de ser adotado, ter a PACIÊNCIA e o AMOR necessários para fazer com que ele se torne um bicho dócil, isso sim é uma coisa recompensante. Ver a cara do dono vindo buscá-lo aqui, ou os olhos de sua dona brilhando quando o levamos à sua casa nova, isso sim é o que faz com que nossos corações se encham de paz e alegria, isso sim é que faz com que nós continuemos fazendo o que fazemos hoje em dia, que é nos doarmos para um ser que nem conosco vai ficar, que vai fazer a vida de outro alguém cheia de amor e companhia. Porque, sinceramente, ao contrário do que muita gente pensa, ser protetor não é fácil.
Sim, é muito romântico quando as pessoas pensam “Ah, vou ajudar uma ONG! Vou resgatar uns gatos na rua e vou colocar para adoção”. O que ninguém pensa é que são pessoas como eu, o Adalberto, a Tati, o Cris, a Dani e muitos outros da Confraria que não conheço (e de tantas outras ONGs) que dão o sangue e gastam do próprio bolso para manter os bichos vivos, para entregar bichos decentes, sem doenças, castrados e bem nutridos. Os dois casos que vou contar aqui — e que me enchem de alegria e que me fazem querer continuar com esse trabalho — foram tratados com dinheiro do meu bolso e do da Tati, de ninguém mais. A ONG tem dinheiro para alimentar os bichanos e para oferecer alguns cuidados. Mas, quem é protetor sério sabe que, quando o pau come, quem gasta é quem está com os bichos em casa. E dá-lhe ração, radiografia, exames… O que for necessário. Afinal de contas, eu acolhi na minha casa, eu disse que poderia cuidar, então a responsabilidade é MINHA. É muito simples tirar os gatos da rua e socar na casa dos protetores.
É muito simples ir para casa pensando: “Ah, tirei nove gatinhos da rua hoje! Mandei todos para a casa da Alessandra, que é tão legal e vai cuidar deles como mãe, depois vai mandar para casas muito boas e eles vão ficar felizes para sempre!”.
Sim, na maioria das vezes é assim. Só que ninguém liga para perguntar como estão os gatos, ninguém pergunta se precisa de ração, ninguém vem se oferecer para limpar as caixas de areia. Se o gato ficou doente, é o protetor que tem que se virar, ou rezar para a ONG ter como bancar. Ser tirador de bicho das ruas é fácil. Ser difícil é ser PROTETOR. É ter amor pelos bichos, é deixar de ir ao restaurante por ter que pagar conta de veterinário.
Ainda assim, há casos me mostram que todos esses problemas valem a pena, que eu devo relevar tudo, porque existirão pessoas que — ainda que demore — vão se apaixonar pelos gatos e que vão amá-los tanto quanto eu, que vão se propor a assumir meu cargo de mãe temporária e vão levar isso até o fim, que vão torná-los partes de suas famílias, independentemente dos problemas, ou “defeitos” como tantos chamam, sejam eles MIAR, ser TRAUMATIZADO, CEGO ou qualquer outra coisa.
O primeiro caso é o do Bong. O Bong é um gato amerilinho, listradinho, de porte bem pequeno. Até onde sei da história dele, ele foi achado em uma casa em demolição. Ele estava em estado tão lastimável, que nem sei por onde começar. Algum ser humano boçal teve a coragem de furar os dois olhos dele. Um deles vazou completamente e o outro estava totalmente horrível. O detalhe bizarro da história, e é esse tipo de coisa que me faz ficar indignada e escrever o que disse acima, é que a pessoa que o encontrou era um oftalmologista. Ok, entendo que olhos humanos são olhos humanos e que olhos felinos são diferentes, mas, ainda assim.
Como é que um oftalmologista não tem coragem de olhar para o estado do gato e ver que era sério? Ou, melhor, por ser um oftalmologista e por ter se proposto a tirar o gato das condições onde estava, por ter visto como estavam os olhos do Bong, como ele conseguiu entregar o Bong para a Tati e nunca mais pedir notícias? Pior, sendo um oftalmologista, como ele não se tocou que o tratamento iria ser caro e que ele, por ter assumido a vida do Bong — porque, para mim, resgatar um gato é assumir a vida desse animal — não se propôs a ajudar de alguma forma, nem que fosse somente com a ração até ele encontrar sua casa definitiva? Olha, fazendo as contas, isso não seria grande coisa. Um saco de Royal Canin Premium de 10 kg sai por mais ou menos R$80,00. Um gato come, quando come bem, uns três quilos por mês. OK, a Sabor e Vida é mais barata, sairia como que R$ 20,00 por mês. É claro que tem gente que vai pensar “Poxa, mas do que ela está reclamando, são só 20 por mês”. Sim, só vinte. Mas tem época em que você fica com nove, dez gatos “temporários” em sua casa, por tempo indeterminado. É só fazer as contas.
Bem, então Bong, abandonado, em situação péssima, chegou aqui em casa. Ele veio aqui para casa porque a Tati estava com dificuldades em arrumar um oftalmologista veterinário lá pelos lados dela — que, diga-se de passagem, são bem longe dos meus. Ela já me avisou de antemão que o Bong era um gato arisco, que não se misturava com os outros e que vivia em cima de um armário, por ser totalmente avesso a contato humano. Eu nunca havia passado por uma experiência dessas antes dele. Normalmente, todos os gatos que ficam aqui em casa são fofos, coleiros, uns amores. Bong chegou à minha garagem e já se enfiou pelos cantos. Ele não gostava de contato, mas pelo menos aqui em casa ele não ficava escondido nos lugares altos para evitar qualquer tipo de interação. Levamos ao veterinário e então começou o longo processo de reabilitação e socialização. Como foi há muito tempo, nem sei ao certo quanto tempo ele ficou aqui em casa. O que posso dizer é que foi muito, muito tempo mesmo.

Bong no dia em que foi resgatado, junho-09.
O veterinário fez uma nova curetagem no olho que ele havia perdido e iniciamos o tratamento para a vista que ainda estava funcional. Quando ele chegou aqui em casa, a Tati me disse que havia suspeitas de que o outro olho pudesse estar daquele jeito por câncer. Depois de n exames, constatou-se que o olho dele havia sido realmente furado, que estava com algumas úlceras e que ele precisaria de diversos colírios e pomadas oftalmológicas especiais.
Aos poucos, o relacionamento que eu e meu marido desenvolvemos com ele foi fazendo com que ele se sentisse menos intimidado. Claro, ele ainda não chegava perto de nós, mas estava melhorando. Um belo dia, ele veio comer carne na nossa mão. Outro belo dia, ele deixou pegar no colo. Outro dia, ele ficou no colo e não fugiu cinco segundos depois. No outro, ele começou a dormir com os outros gatos do LT. Só que isso tudo não aconteceu de uma vez só. Cada progresso foi sofrido, cada progresso foi extremamente comemorado por nós. Cada um deles foi uma conquista que nos fez querer oferecer mais e mais, mostrar que nem todo humano é um filho da puta, que nem todo mundo vai querer furar os olhos dele, que há gente boa nesse mundo.
A última cirurgia do Bong foi a que nos deixou mais preocupados. Como o olho dele apresentava uma aderência na membrana, o veterinário teve que fazer uma raspagem e, para piorar a história, teve que dar uns pontos na pálpebra, para não haver nenhum atrito durante a recuperação. Eu e o Adalberto nos desesperamos, afinal de contas, depois de tantos progressos, íamos ter que deixar o Bong cego por uma semana pelo menos. Nessa hora é que eu digo que os animais entendem as intenções das pessoas. O comportamento do Bong não regrediu em nada. Os pontos foram tirados dos olhos dele e a recuperação foi inacreditável. Nunca ficaria 100%, mas foi incrível. Mas o mais incrível aconteceu na hora em que resolvemos dar um banho nele. Nunca havíamos nos metido a dar um banhinho, porque não queríamos que ele ficasse estressado. Ah, ledo engano. Talvez, se tivéssemos tentado isso antes, quem sabe tudo teria acontecido mais rápido. Ao mesmo tempo, creio que devemos dar tempo ao tempo, porque as coisas acontecem quando têm que acontecer. Depois do banho, como todo mundo sabe, devemos enxugar o gato e depois secar. Quando meu marido colocou o Bong no colo e começou a esfregá-lo com a toalha, ele se abriu todo. Não ronronou, mas ficou, se deixou tocar, aceitou o toque, o carinho, a dedicação em sua totalidade pela primeira vez.
Não preciso dizer a alegria que sentimos. Para completar, ainda apareceu uma pessoa interessada em adotá-lo. Como o tratamento ainda não havia terminado, pedimos que ela esperasse. Ainda assim, a cada semana, sentíamos um medo terrível que essa pessoa mudasse de idéia, afinal de contas, foi dito a ela que o Bong era traumatizado, que não tinha um olho e que o outro estava comprometido. Mas que nada! O mundo não é feito só de irresponsáveis. Existe muita gente boa no mundo, muita gente que quer dividir o amor que carrega no peito com os bichos e ela perseverou, esperou até o fim do tratamento, pacientemente, perguntando sempre para a Tati sobre ele, pedindo notícias e sempre reiterando seu interesse pelo nosso Bonguinho.

Bong, antes arisco e hoje confiante! Na foto, no colo com a Tati, sua dona.
O dia em que fomos entregá-lo foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Olhei para o casalzinho, dois jovens recém-casados, vestidos de preto, numa casa pequena e com dois outros gatinhos. Imediatamente apertei a mão do meu marido e ele me entendeu. Nós estávamos nos enxergando ali, sim, éramos nós, só que há muito tempo atrás. As roupas, o desejo de vencer na vida, o amor para com os animais. Nada no mundo paga a felicidade que eu vi no rosto dos dois, o amor que demonstraram pelo Bong de imediato, um bicho que nunca haviam visto na vida, mas que decidiram adotar para sempre.

Bong no novo lar.
O mais engraçado é que minha intuição estava certa. Fiquei sabendo pela Tati que hoje eles têm treze gatos, exatamente o mesmo número de gatos que tenho aqui em casa…

Bong dormindo feliz com seus amigatos!
========
Não é demais?
Como a gente costuma dizer, era uma vez uma pessoa que não sabendo o que era impossível, foi lá e fez.
À Ale e Adalberto, todos os muito obrigadas que eu posso dizer são poucos perto do quanto já fizeram pela Confraria e por tantos gatos sortudos que passaram pelo caminho deles.
Vem prá cá você também! =))