Pela negligência humana…

… eles pagam com a vida.

Na última quinta-feira, feriado, eu e a Luciene fomos até Santos a pedido da Patrícia do Cats of Necropolis para, numa ação conjunta, intervir num caso de colecionismo de animais.

É a manjada história: uma senhora que já perdeu o controle há muito tempo vai juntando animais, sujeitando-os a uma vida de miséria e doenças. Um dia ela também fica doente, e os bichos ficam lá à mercê da sorte.

Neste caso a cidadã sofreu um AVC e não voltará mais à casa. Eu não costumo negociar com colecionador, nem entrar na casa de um para ‘remediar’ a situação porque quando você cede à chantagem emocional e resgata um, o que você faz é abrir lugar para que outros dois sejam repostos.

É por isso que nesse eu fui. Porque a pessoa não voltará mais àquela casa.

O lugar é a ante-sala do inferno. Se você já foi à casa de um colecionador de animais pode imaginar. Se nunca foi, vai ser difícil imaginar o cheiro, a visão, a textura das coisas, o desespero daquelas vidinhas confinadas. Resignadas.

Pia e fogão

Ao todo havia uns 8 cães idosos dentro da casa, em torno de 40 gatos (das mais variadas idades e estado de saúde), 2 coelhos, uma rã e mais ou menos 30 cães nos fundos.

A Patrícia e mais algumas pessoas já tinham providenciado areia e ração, tanto para os gatos quanto para os cães. Eu e a Luciene descemos para Santos com o carro carregado com mais doações de ração, latinhas e medicamentos, graças ao suporte de simpatizantes e amigos que se uniram e ajudaram. Nós também não temos muito, mas mesmo assim tiramos dos nossos para levar.

Não fotografamos muito a casa por dentro, mas a situação é desesperadora. Os gatos já tinham sido avaliados por uma veterinária e já haviam sido ‘marcados’ em grupos de jovens, adultos e idosos, e depois em subgrupos dos mais fortes (alguns jovens que chegaram lá há poucas semanas ou adultos que, acuados, não se misturavam aos demais) e dos mais debilitados.

A Confraria podia atender seis casos. Seis, diante de quarenta, não é nada. É muito pouco. Mas era o que a gente podia assumir com decência: cuidando como se deve, recuperando, alimentando bem, castrando, vacinando e depois, enfim, providenciando um novo lar definitivo. Isso é um processo que pode levar meses. Como escolher quem fica e quem vem?

Decidimos por trazer um adulto que estava apanhando e vivia num canto da geladeira (mas que aparentemente não tinha muitos problemas), 4 adultos do grupo dos muito doentes e uma filhota que se aboletou no meu pescoço e só saiu de lá para a caixinha de transporte. Foi emocionante. Ela subiu em mim sozinha, se aninhou como se sempre tivesse estado lá e alí ficou mesmo enquanto eu andava e segurava outros gatos para medicar.

Foi batizada como Shakira:

"Tia, é o seguinte: eu não vou sair daqui do seu colo!!"

Aqui, mais alguns pontos de vista da casa:

Essa é a 'mesa' da cozinha. Dos gatos que estão nela, vieram um frajolão que está comendo, abaixado, e esse amarelo da direita.

Essa gata estava catatônica. O estado do corpo dela era de doer, ela só se moveu para comer quando colocamos patê. Mesmo assim não durou muito, já que por mais que a gente colocasse, não durava 2 minutos. Os mais fracos não conseguem comer, ficando pra trás. Essa era uma da turma dos mais fracos.

Depois de ajudar a medicar boa parte dos gatos da casa (receberam Advocate, vermífugo e antibiótico já que os problemas respiratórios estavam em todo canto – tudo levado pela Patrícia e Dra. Eliane), separamos os que pudemos trazer e voltamos para São Paulo.

A Dra. Fernanda Conde nos ajudou em mais essa com seu trabalho, seu tempo e seu espaço. Ontem de manhã levei os 6 para a clínica onde foram minuciosamente avaliados.

Sedados, todos foram foram castrados, banhados, tiveram as unhas cortadas e as orelhas (em petição de miséria) limpas. Eram 2 fêmeas (Shakira e Prada) e 4 machos (Yves, Gucci, Armani e Fidel).

Vou colocar fotos de cada um deles e contar um pouquinho do perfil.

O Armani é um gato que já tem mais de 10 anos. Ele estava totalmente apático, com muita secreção nasal e nos ouvidos, muito barulho nos pulmões e o estado geral dele era miserável. Pus vazava de um dos ouvidos, e no outroeu vi algo que parecia ser uma ‘bolha’ de pus. Infelizmente a ‘bolha’ era um tumor no conduto auditivo, causado pelos anos de infecção sem tratamento. Retiramos a peça e mandamos para biópsia, mas apesar de todo o jeito de parecer maligno não sabemos como vamos agir. A cirurgia para o caso dele é muito dolorosa e tudo vai depender das circunstâncias.

O Fidel é um gatão de aproximadamente dois anos. Ele vivia em cima da geladeira, num canto, porque apanhava muito dos outros. Apesar de ter estrutura bem forte, ele está muito magro porque não conseguia descer para comer. Seu corpo está cheio de sinais de briga (cangote, na barriga, nas costas) e um dos seus caninos quebrou na raiz. A extração de um canino precisa de material muito específico e não pudemos fazer isso, mas fizemos a denervação do canal, assim o Fidel não sentirá mais dor. Sabe a dor que é um canal aberto? O Fidel sentia isso.

Esse da direita é o que sobrou do canino dele:

O mais urgente já fizemos, mas será necessário levá-lo a um especialista depois. Se você puder ser madrinha/padrinho do tratamento dentário do Fidel, clique aqui e nos ajude.

O Gucci é um carinha muuuito gente boa. Quando o escolhi seu nariz estava trancado de tanta secreção, respiração difícil, muito magro e um tanto apático até o momento em que percebeu o patê. Comeu feito um maluco. Além da sarna de ouvido intensa, ele tem uma ferida grande na ‘testa’, por conta de coçar as orelhas (eu acho). Cheio de feridas pelo corpo, feridas típicas de briga. Ele tem aproximadamente 3 anos. Dele extraímos 3 dentes na arcada superior, entre os incisivos, porque já havia lesão reabsortiva. Suas patinhas traseiras estavam bem inchadas, achamos que por conta das assaduras e inflamação, mas se não ceder precisaremos fazer mais exames nele.

Se você quiser e puder apadrinhar parte do tratamento do Gucci, clique aqui!

O Yves estava amontoado num canto, numa prateleira. Eu achei que fosse irmão do Gucci, mas ao examiná-lo descobrimos que ele é bem mais velho, tem pelo menos 6 anos. Além de só ter as presas e alguns dentes caudais, o Yves tem uma sequela neurológica: de vez em quando ele pende a cabecinha pro lado, pra esquerda. Descartamos problemas auditivos, apesar de ele ter um tantão de sarna de ouvido. Tirando isso e a desnutrição, ele logo logo ficará bem.

A Prada é um caso sério. Quando a peguei ela estava estática entre muitos outros gatos. Seu estado era bem pior do que parecia, enfim. Além da magreza e das muitas feridas pelo corpo (MUITAS), ela estava com muita secreção nasal e com os ouvidos purgando também. Na castração, a surpresa: em resumo, a Prada é hermafrodita. Ela tinha útero mas não tinha ovários, tinha testículos atípicos no abdome, tem vagina e dentro dela um pênis atrofiado. Acreditamos que ela seja irmã do Fidel, ela tem perto de 2 anos também. Fotografamos todo o caso, ela foi castrada e tratada como fêmea pois são os órgãos mais desenvolvidos dela. Além do mais, tem a cor: a Prada é uma sialata-escaminha, ou seja, só podia mesmo ser menina.

A Shakira é a bebéia da nossa turma. Ela tem em torno de seis meses e literalmente ordenou que eu a trouxesse. Pouco antes de vir embora uma cidadã que passava em frente à casa comentou que fora ela quem levara a Shakira e mais alguns gatos àquela casa, porque “ou morriam na rua ou morriam lá dentro”. Eu me pergunto que desgraça de amor é esse, mas enfim, continuei a fazer o que podia – que infelizmente era trazer só seis.

Shaki, talvez por ter ficado na casa por poucas semanas, estava no ‘grupo’ dos gatos em bom estado. São mais ou menos 7 gatos que estão bem, mas precisam sair de lá LOGO, antes que fiquem doentes como os demais. Shakira não estava castrada, entre tantos gatos inteiros. Meu medo era que estivesse prenhe, já que a barriga era grande. Felizmente eram  ’só′ toneladas de vermes, saindo até mesmo pelo narizinho dela. Imaginem isso.

Tirando a sarna de ouvido (+++), ela tem uma pequena cicatriz no olho direito. Possivelmente lesão em consequência de alguma doença como rino, ou mesmo um trauma já curado. A cicatriz ficou. Ela enxerga normalmente e é uma das gatinhas mais carinhosas do mundo! Esse é o olhinho dela, que vai ficar manchadinho mas não tem mais problema:

Ufa.

Falando assim, mesmo com a quantidade imeeensa de palavras, parece pouco.

Passamos a quinta-feira inteira por conta disso, saindo de casa cedo, buscando as doações de pessoas em SP, e depois indo pra Santos pra ajudar a medicar quem ficou, ajudar na tentativa de limpar minimamente o lugar (mais a Luciene do que eu), capturar os gatos, enfim. A sexta-feira idem, pois foram 8h banhando, limpando, medicando e tratando dos Coitadinhos de Santos.

Quase me esqueço: os dois coelhos que estavam lá viriam conosco, mas um deles se escondeu de uma forma que não conseguimos encontrar. Trouxemos só um, e ele já ficou com a Dra. Fernanda que tem em casa um viveiro muito bacana onde todos os machinhos são castrados. Ou seja, nada de mais coelhinhos nascendo.

No próximo sábado iremos novamente pra Santos, dessa vez com a Adriana. Pretendemos trazer o coelhinho que sobrou e mais alguns gatos, mas isso vai dependese se conseguiremos lugar para qualquer um dos que já trouxemos e, logo, ter espaço pra tanto.

COMO AJUDAR:

- Precisamos MUITO:
- Sachets de ração;
- Latinhas de patê;
- Latinhas de A/D;
- Ração super premium;
- Areia higiênica,
- Antipulgas em pipeta.

Se você puder comprar pela VirtualPet clicando aqui, eles entregam aqui pra gente. Podemos levar para os gatinhos que estão lá OU direcionar para os gatinhos que estão sob os nossos cuidados, você escolhe.

- Lar temporário:

Sábado traremos mais 5 gatos, pois a Dra. Fernanda e o Marcelo conseguirão acolher 4 e a Confraria ficará com mais 1. Precisamos MUITO de lar temporário para qualquer um dos gatos; reitero que todos eles só seguirão para o LT depois que receberem alta, ou seja, já sadios (ainda que precisem de mais tempo para engordar).

Se você tem um espacinho em casa, acolha um dos nossos mais ‘encalhadinhos’: o Armani (que tem mais de dez anos) ou o Gucci (que de vez em quando entorta a cabecinha).

TODOS eles, sem exceção, são gatos dóceis e de muito fácil manejo. Eles só tem fome. São limpos, quando viram a areia já foram lá checar.

Se você não tiver condições de ajudar com algum item ou mesmo com apadrinhamento, doe seu espaço e seu tempo. Nós nos responsabilizamos INTEGRALMENTE pelos custos do animalzinho enquanto ele estiver na sua casa (ração, areia, consulta veterinária, medicamento se necessário). É triste saber que temos condições de ajudar muitos mais, mas não temos espaço físico para isso.

Por favor, pense nisso com carinho. Acolha UM, somente UM, e já poderemos tirar mais outro de lá.

Se topar fazer lar temporário para algum deles, clique aqui e fale com a gente.

- Apadrinhando um dos gatinhos que estão conosco:

Alguns deles (Armani, Yves, Gucci, Fidel) precisarão, num segundo momento, de atendimento muito específico e isso custa dinheiro. Sempre conseguimos preços bacanas e prestamos conta de tudo. Se você puder e quiser apadrinhar qualquer um deles, criamos um produto na lojinha específico para isso. Basta clicar aqui.

- Divulgando.

Toda a divulgação é preciosa. Espalhe entre seus amigos, quem sabe algum deles pode nos ajudar. Vale tudo: Twitter, Orkut, Facebook, tudo.

Contamos com o apoio de vocês para dar conta de mais essa.

Super obrigada e até mais!

Tatis & Equipe Confraria



54 Responses to “Pela negligência humana…”

  1. Liz Ribeiro disse:

    Ops, A quinze minutos…rs

  2. Nelma disse:

    Achei muito alto o valor do frete cobrado pela loja, daria para comprar mais um monte de coisas. Não tem uma conta que a gente possa fazer um depósito?

  3. Tatis, doei agorinha mesmo lá pela loja da Confraria (apadrinhamento). Veja se recebeu direitinho, tá?!
    Queria poder ajudar todo mês… mas todo que puder, ajudo. ;D

  4. [...] criança (hoje já sou adolescente, já tenho 10 meses) quando a tia Tati foi buscar a gente lá em Santos. Quando ela chegou lá, eu, que não sou besta, subi correndo no ombro dela e fiz “Ou você me [...]

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