Dia dos Gatos

Um gato desperta tudo o que há de melhor em mim.

Todo o amor e compaixão que eu posso sentir.

Todo o sentimento de que sim, podemos fazer mais e melhor, sempre.

Toda a inquietação e inconformidade ao vê-los pela rua, implorando alimento, debaixo das chuvas.

Por um gato, eu continuo a acreditar nas pessoas, mesmo diante de tantas injustiças para com eles.

Os gatos, quando lhes é dado a oportunidade, conseguem as melhores famílias, os melhores lares, as maiores historias de amor.

Os gatos, tão íntegros, majestosos. Esculturas vivas que andam silenciosamente e graciosamente, enchendo nossa casa e nosso coração. Miados e bigodes únicos, olhares verdes, dourados e azuis cheios de honra.

Pelos gatos eu travo batalhas diariamente, contra a desinformação, a ignorância, contra mitos que colocam a vida deles em risco.

Travo batalhas até mesmo quando o desanimo me alcança. Pois os gatos que precisam da gente não poderão esperar para que as coisas melhorem. Para aqueles que sofrem nas ruas, cada minuto conta, cada ação, mesmo pequena, é a diferença entre a vida e a morte.

Por um gato eu sonho alto e grandiosamente. E por um gato, eu luto para que cada sonho, para eles, se torne realidade.

Não é fácil, não é barato, não é tranqüilo. Pelos gatos meu coração já se despedaçou em mais pedaços do que posso contar.

Mas, pelo gato que está comigo, tudo se transforma. Silenciosamente, ele me encoraja e remenda os cacos do meu peito para outro suspiro.

E nas noites frias, deitado ao meu lado, como eu poderia desistir de dar a outros uma vida melhor?

Um gato é minha inspiração. É o grande amor da minha vida.

Para você, que tem um gato, certifique-se que sempre será digno da sua companhia.

Acredite: ele será o melhor amigo que você poderá encontrar.

Eu te amo. Este é o ponto em que estamos.

Extraordinariamente comuns

Sou professora. Essa curta afirmação já é auto-explicativa quanto à minha condição monetária, apesar de amar minha profissão.

Não tenho carro próprio e ainda moro com meus pais. Não tenho sonhos de riqueza ou grandeza extremos.

Mas eu me considero sortuda. Tenho em mim o desejo de dias melhores para bichos abandonados, que vão muito além de minhas limitações terrenas. Carrego em mim uma esperança teimosa e bigger than life, de que as coisas, podem sim, mudar para melhor.

Conto moedinhas regularmente. Afinal, ao contrário do que tantas pessoas podem acreditar, não temos nenhum tipo de ajuda ou salário por parte das autoridades. Meu dia é corrido assim como de qualquer outra pessoa, dividido entre meu trabalho, minhas obrigações, meu lazer e este trabalho mais do que voluntário, este trabalho que é de amor.

Divido essa chama com dezenas de bons amigos ao redor do Brasil, que são assim como eu, pessoas ocupadas, trabalhadoras, com uma renda modesta e com a mesma inquietação no peito diante do abandono e de um animal sofrendo.

Chegando em casa, de um longo dia de trabalho, depois de dar atenção à nossas famílias, também compartilhamos nosso coração com aqueles filhotes órfãos hospedados em nosso banheiro, alimentamos o cachorrinho para adoção, medicamentos o bichinho que se recupera da dor de ter sido largado sozinho no meio de um matagal. Levamos animais para castrar na tentativa de diminuir os números e tristezas que testemunhamos todos os dias.

Nossos finais de semana, que poderiam ser inteiramente de diversão, também tem suas horas doadas a esta causa e a estas pequenas vidas que tem, em nós, sua única chance.

Nossas inspirações e motivos são os mais variados, assim como nós mesmos.

As formas de ajudar, também. O importante é nunca perder o foco, nunca tentar fazer mais do que o bolso, mente e coração possam suportar.  O que fazemos nunca deve se tornar o TODO, mas uma parte boa e saudável de nossas vidas.

De pouco em pouco, mesmo com nossos compromissos, mesmo com o cofrinho quase sempre vazio, com o coração às vezes cansado das injustiças e desafios, com horas poucas para tudo o que deve ser feito, conseguimos.

Somos capazes de executar pequenos milagres, que para dezenas de cães e gatos deixados à própria sorte, significam toda a diferença.

Não somos ricos, não temos todo o tempo do mundo.

Continuamos a ser extraordinariamente comuns.

Apenas nos importamos.

“Não espere por circunstancias extraordinárias para fazer o bem.

Sam Rayburn

“E ninguém tem nada com isso.”

Essa é uma das frases que mais permitem que injustiças e desgraças aconteçam.

É com uma frase e pensamento desses, que as pessoas se permitem escutar a esposa do alcoólatra sendo espancada todos os dias, em silêncio.

É assim que a criança é abusada sexualmente pelo parente, todos na família sabem, mas ninguem se manifesta.

É assim que testemunhamos o bullying cruel do negro, da moça pobre, do garotinho de cabelos crespos que não usa roupas de grife.

Com esta frase nos afastamos de nossos papeis como cidadãos, desligamos a justiça, igualdade e compaixão em nosso peito e mente. Cobrimos nossos olhos com um manto negro do comodismo.

O “não é comigo” se transforma em uma bola de neve destruidora. E aquele mesmo marido que bate na esposa  irá estuprar a sua filha na volta da faculdade. O pedofilo estará observando seu neto enquanto ele brinca no parquinho. Quem sofre bullying irá se vingar, atirando em pessoas na praça de alimentação da escola.

Todo os dias, pelo bem da “cordialidade”, permitimos que um conhecido explore economicamente seu animal e entregue os filhotes para o primeiro que aparecer com dinheiro, não importando seu futuro ou a ausência dele. Um veterinário, para manter clientes, irá concordar em ser cúmplice de um criador de fundo de quintal, ao invés de falar sobre castração. Alguém que se diz protetor, entregando animais sem castrar, para o primeiro que aparecer. Alguém inventando raças para animais mestiços, apenas para livrar-se deles mais rápido. O nosso parente que mantém um macho com acesso às ruas e marcado de brigas, mas não falamos sobre esterilização e posse responsável, para que não construam “opiniões a nosso respeito”.

Quando dizemos que o problema não é conosco, não sentimos pena da caixa de filhotes recém-nascidos e deixados na rua. Não colocamos sequer um prato de água para a cadela abandonada prenhe na rua. Passamos por cima do gato atropelado morrendo em nossa calçada.

Mas existem pessoas que não se calam. Você mesmo deve conhecer alguém. Eles são chamados de chatos, radicais, aqueles que “vivem se metendo”. São essas mesmas pessoas que estão em um multirão, entregando comida para os desabrigados, que fazem passeatas contra a homofobia, que tiram do seu salário o valor de uma castração ou cuidados para um animal carente, que com certeza outro conhecido seu, foi responsável por estar nas ruas.

Eu sou chata. Não me calo, não me convenço de que as coisas não mudam.

Mesmo que a passos tão pequenos nesta minha cidade, neste meu país, o fato de eu – e várias outras pessoas – não se conformarem é o que faz com que as BOAS mudanças aconteçam.

É o nosso grito, nossa teimosia. Cabeças duras e mãos calejadas, o coração palpitando e os olhos focados na pequena luz que surge no fim do túnel da ignorância. Cada faísca que brilha é uma vitoria que vai além de nós mesmos.

O futuro é o que construímos a partir de nossos desejos, sonhos, das injustiças que testemunhamos e sofremos, que destroem nossa alma aos poucos.

Faça o que puder, nada é pequeno demais, nenhuma palavra para o bem é perdida.

Ficar de braços cruzados não é uma opção.

“Faça aquilo que é sua obrigação e um pouco mais. O futuro será um lugar melhor.”

Andrew Carnegie

Nós, imperfeitos

Essa semana o Arthur me mordeu.

Mordeu bem forte mesmo, duas vezes em minha perna. Trouxe um gatinho do projeto que começou a miar desesperadamente e o Arthur, que odeia outros gatos, tentou atacá-lo e, errando o alvo, cravou as presas com força em minha perna.

Mas, lógico que não foi a primeira vez. Quando era mais novo fazia isso, de brincadeira. É isso que acontece com filhotes que não tiveram a oportunidade de conviver com a mãe e os irmãos, que não aprenderam a não machucar.

As mordidas na perna doeram muito, ficou inchado. Mas quando retornei para casa horas mais tarde, ele deitou-se do meu lado de barriga para cima, calmo e sereno. Não acredito que animais pedem desculpas pelas coisas erradas que fazem. O Arthur estava apenas agindo como o gato – temperamental e territorialista –que é. Minha perna só estava no lugar e na hora errada.

Já levei coices, tive dedos quebrados por um cavalo empinando – e sinto incômodo até hoje – fui arranhada e mordida por gatos. Já fui perseguida por cães. Animais não são maléficos ou traiçoeiros, eles apenas se comportaram como seu instinto respondeu naquelas situações.

Mas por causa desse incidente bobo escutei coisas absurdas, como punir o Arthur fisicamente pelo que ele fez e, a pior de todas as frases, eu deveria tê-lo “jogado fora” pelas mordidas.

E aí eu me pergunto…  onde está o amor? Então tudo o que esse gato representa e me trouxe de bom nesses últimos 5 anos não vale de nada diante desse único episodio?

Me distancio de pessoas que não adicionam nada em minha vida, me distancio de quem me magoa ou decepciona de propósito. Se nem de meus semelhantes pensantes posso esperar perfeição, por que eu iria cobrar e punir este momento do Arthur?

Ele é o amor da minha vida, mas ainda é um gato. E irá reagir e ter a liberdade de agir como tal ao meu lado.

Acredito que as pessoas cobram demais de seus bichos. Compram ou adotam aquele filhotinho branco, peludo e de olhos azuis, esperando um leque infinito de qualidades, que esperam dos outros, de si mesmos, se esquecendo que o animal não é uma extensão, mas um ser próprio e singular. O cão irá latir de madrugada, o gato irá arranhar algum lugar, o papagaio de estimação poderá sujar seus moveis e o cavalo que você tanto ama irá te dar um coice ao se sentir ameaçado. Isso não significa que ele odeie você, isso apenas demonstra que ele é um bicho.

O Arthur veio para minha casa, das ruas, com quase 1 ano de idade. Me preparei para dias infernais, com um gato barulhento, sujando a casa, rasgando o sofá, roubando comida das panelas e tudo o mais de errado que a vida nas ruas poderia ter influenciado nele.

Mas ele é um príncipe. Nunca fez nada de errado. NUNCA.

Ele se adaptou tão bem a nós e a nossa casa, como se o seu lugar sempre fosse – e é – ao nosso lado.

Não é isso o mais importante ao trazermos um bichinho para nossa família? Que exista cumplicidade e afeição genuína? Que aquela cauda que abana e derruba coisas esteja feliz apenas por chegarmos em casa? Que aquelas garras que desfiam nossa calça estejam, na verdade, pedindo atenção e nosso carinho? Aquela pata peluda em nosso rosto, às 5:30, está apenas solicitando um espacinho em nossa cama.

O olhar verde mais lindo do mundo não parou de me fitar, sem julgamentos, mesmo nos piores momentos.

Não somos perfeitos, eu e o Arthur.

Mas aqui não haverá abandono. As promessas sussurradas não serão desfeitas.

Entre nós existe amor. E isso é o mais importante, sempre.

“As coisas mais belas nunca são perfeitas.”


Bravery

Coragem.

O que é coragem para você?

Para mim foi parar de ser uma sombra de cabeça baixa e sussurros.

Foi me afastar daqueles que tinham de mim tudo do melhor, mas me devolviam migalhas.

Foi perceber que existem inúmeras coisas mais importantes do que restaurantes caros e saídas de final de semana.

A minha coragem se fortalece todos os dias nas minhas cicatrizes, no meu coração que se recusa em se deixar partir novamente.

Nas palavras  duras e nos abraços que meus próprios braços me deram quando, rodeada de pessoas, havia momentos de solidão.

Em meus olhos não há venda de mentiras. Eu sei que minha realidade não é perfeita em vários aspectos e com minha teimosia e coragem, decidi mudá-la, mesmo que a minúsculos passos de cada vez.

A coragem das pessoas surge das mais diferentes maneiras e pelas mais diferentes motivações. Uma doença, uma situação financeira, algo que lhe traz tristeza.

Também é necessário saber até onde nossos pés e braços alcançam para que o nosso ato de coragem não seja uma tolice em vão. O que posso fazer, o quanto posso fazer e o que é preciso para que seja feito. E acima de tudo, há amor por trás da minha valentia?

Pois no final das contas, será o amor pelo que acreditamos que irá nos levar adiante. É o que nos faz sentar, planejar e agir corretamente. Se não houver amor, não há comprometimento e sem doarmos tempo, dinheiro e fôlego, nada poderá ser diferente.

Desde que comecei com resgates e adoções, nada mudou significativamente em minha cidade. Continuamos sem educação, ignorantes em relação a castração e posse responsável e o número de animais abandonados somente cresce. Ainda somos uma das poucas cidades do Brasil em que o CCZ não tomou uma medida eficaz contra a superpopulação de cães e gatos pelas ruas. E o sofrimento deles ainda é realidade. Tudo muito caro, tudo muito difícil. E minha única saída, de acordo com as minhas possibilidades, seria desistir. E então fui para o Canadá.

O C.E.D foi o que escolhi. Em menos de 3 meses 22 animais ajudados. O mesmo número com resgates e adoção em São Luís seria algo impossível. Fazer isso sem me afundar em dividas até o pescoço também seria impossível.

Já me perguntaram como eu tenho coragem para muita coisa… coragem pra levar os animais para castrar, coragem de entregá-los a novas famílias, coragem de segurá-los para procedimentos, etc. Ultimamente com os Felinos Urbanos me perguntam como eu tenho coragem de pegar gatos ferais, de marcar suas orelhas,  de devolvê-los pra rua – mesmo sendo ferais – e como eu tenho coragem ao devolver um gato mais manso para o local de onde veio.

A diferença dessa “coragem” para a coragem que eu estou acostumada é que na maioria desses casos, coragem = maldade. Sim… aparentemente, fazer C.E.D te coloca no mesmo patamar de alguém que maltrata um animal e não tem compaixão. O tom das vozes das pessoas é o mesmo de alguém que acabou de abandonar uma ninhada a própria sorte. A #6 perdeu o filhote envenenado por uma pessoa que sabia o que estava fazendo. A #11 com certeza foi abandonada. A #5 foi chutada por crianças e seus filhotes morreram na barriga. Será que alguém questionou como essas pessoas tiveram coragem para isso?

Então que tal repartimos nossas responsabilidades, para que minha coragem também seja a sua? Que tal eu capturar e você reabilitar, incluindo todos os custos, os gatos ferais e colocá-los para adoção? Levando em consideração que dificilmente um animal feral se socializa, você tem a coragem necessária para cuidar de um animal arisco até o final da vida dele? E que tal você ter coragem de manter em sua casa TODOS os animais mansos que foram capturados? Ou se responsabilizar por todos os filhotes que nascerão pela falta de coragem de castrar os adultos?

Quem está na proteção animal não pode ser mesquinho, egoísta ou megalomaníaco. Não há como salvar todos e eu, assim como quem faz C.E.D sabemos disso. E aí reside a nossa coragem. De conhecer nossas limitações e, mesmo com todas as dificuldades e tristezas, não desistir pelo que realmente é o mais importante: os animais.

Antes de perguntar onde está a coragem de alguém que opta pela Captura, Esterilização e Devolução, pergunte-se: onde está a minha coragem de parar de criticar e arregaçar as mangas?

Tarinai kotoba narabetemo
Hontou no koto wa tsutawaranai
Yasashii dake ja mamorenai

Mesmo que eu alinhe os argumentos
Eles não são o suficiente para conseguir expressar a verdade
Existem coisas que você não consegue proteger apenas sendo gentil

You have no bravery to see the truth

Você não tem coragem para enxergar a realidade

L’Arc~en~Ciel – Real – 4 – Bravery

Cedo demais

Meu dia começou normalmente.
Conversei com amigos, resolvi algumas pendências, marquei mais duas cirurgias de castração, fui ao trabalho.

Voltando para casa, recebo um telefonema. A cuidadora das colônias proximas me dá uma carona ate o local.

No meio da rua, um ponto branco.

Um filhotinho de gato, com pouco mais de 5 meses, aparentemente.
Uma pequena poça de sangue abaixo, as mesmas manchas nos ferimentos ocasionados por um carro. A face felina tão bela agora machucada.

Ele ainda está morno. Não deve ter acontecido a muito tempo. O sopro de vida em seu peito havia acabado de se extinguir.

Não pudemos fazer nada além de dar um final digno ao seu corpo terreno.

Voltamos pelas ruas próximas e contei inúmeros gatos, cujos dramas tão parecidos se desenrolam em meu bairro. Gatos resultados da ignorância e falta de responsabilidade humana, que não castraram seus antepassados, que os abandonaram, entregando centenas de vidas à mercê de perigos.

Vi fêmeas prenhes, lactantes, machos machucados e mancando. Observei gatos jovens revirando o lixo. Vi também mães com seus pequenos filhotes, que provavelmente não chegarão a idade adulta. A vida nas ruas é cruel. Pura e simplesmente.

A vida nas ruas não respeita idade, não respeita a majestade dos gatos. A vida nas ruas lhe tira toda a dignidade e esperança. A vida nas ruas lhes rouba a tranqüilidade, transformando-os em animais selvagens, tão selvagens quanto o próprio abandono que os consomem aos poucos, em doenças, fome e mortes dolorosas.

Na volta pra casa também revi os meus Felinos Urbanos. Com suas charmosas orelhinhas marcadas, eles me observaram. Meus queridos gatos ferais, que não irão sofrer mais pela reprodução, que não irão mais colocar filhotes neste mundo que finaliza infâncias cedo demais, nem dando a chance para que elas sejam felizes.

E é por esses e muitos outros que morrem diariamente que a castração se tornou minha missão.

A esterilização é a única e melhor coisa que podemos fazer para aliviar essas tristezas, é o que posso fazer por esses gatos, para melhorar seu presente e futuro, já que foi um ser humano que os condenou no passado.

E se finais felizes não são possíveis, que ao menos as vitimas não aumentem em número.

Somewhere over the rainbow

Em setembro dei inicio ao projeto Felinos Urbanos, baseado nos preceitos da Captura, Esterilização e Devolução de gatos ferais, abandonados ou semi-domiciliados pelas ruas da minha cidade, como forma efetiva e humana de controle populacional.

Depois de 4 anos resgatando e entregando gatinhos para doação responsável, participei de um seminário na Humane Society do Canadá que abordava o C.E.D não somente em Toronto mas em vários outros países do mundo e como ele é bem sucedido para a diminuição do sofrimento desses animais. E é desses animais, não-castrados e que vagam por aí, que descendem os meus resgatos.

Diante dos meus recursos limitados , tanto financeiros quanto de mobilidade – eu nem ao menos tenho carro – o C.E.D se tornou a melhor opção para essa cidade atrasada que não oferece gratuita ou a baixo custo, onde cães e gatos são negligenciados e abandonados as dezenas. O que gasto para castrar 4 gatos em um mês, é o mesmo – ou até menos – dos custos para um resgate e doação de um único bichinho.

O projeto Felinos Urbanos iniciou-se com muito estudo, a doação valiosíssima de uma gatoeira, conversas com veterinários competentes, com a reformulação de toda uma identidade, através do apoio da Confraria e com a minha teimosia e incapacidade de aceitar que algo que dá certo em várias cidades do mundo, que dá certo em SP, RJ e Santos não poderia acontecer aqui pela mentalidade pequena de algumas pessoas.

Ontem completamos 12 animais atendidos. 12 animais que foram capturados, esterilizados e devolvidos, com manejo humano e de alta qualidade, que não irão mais trazer nenhum filhote para sofrer em São Luís, que não morreram de fome, maus-tratos ou debaixo das chuvas que começam em dezembro e duram seis meses.

A #10 é uma gata feral de aproximadamente 2 anos. Ela vem sobrevivendo junto com seus filhotes, que coloca no mundo ininterruptamente, em um matagal perto da minha casa. Demorou 3 noites para que ela finalmente entrasse na armadilha e pudesse ser esterilizada. Durante essas noites, em que me sentava do outro lado da rua, de madrugada, o Arthur me olhava lá do alto do meu quarto, pela janela, sentadinho na mesa de estudos.

E com essa cena, comecei a pensar que ele, seguro, feliz e saudável em nosso apartamento, muito muito amado, era minha única testemunha daquela pequena vida que estaria prestes a mudar, justamente por causa dele.

A #10 e outros que já passaram e irão passar pelo Felinos Urbanos compartilha com o Arthur um começo difícil, justamente naquela mesma rua. A mãe dela também morreu atropelada, no jardim do  meu prédio, depois de passar dias com o osso do quadril exposto, em dores. Feral, como a filha, foi impossível ajudá-la.

Alguns gatos doentes e feridos já passaram pelo projeto, como o #9, um gato macho com uma pata dilacerada por brigas, a #5 que foi espancada por crianças que mataram os filhotes em sua barriga e a ultima, #12, que estava em inicio de piometra e com certeza morreria de infecção.

Esses gatos provavelmente nunca seria ajudados. São os inúmeros animais que as pessoas ignoram diariamente. São os bichos que se escondem debaixo de carros e em terrenos baldios, pelo temor que sentem dos seres humanos. Nascidos entre latas de lixo e comendo restos, esses gatos em nada diferem do meu. Se não é possível salvar todos, se não é possível anular a vida de sobreviventes que foram forçados, por alguma pessoa, a encarar, que essa sobrevida seja mais tranqüila, sem filhotes ou brigas para reprodução, sem o stress de uma prenhez ou caça para alimentar até 30 bocas durante um ano e vê-los partir cedo demais, por acidentes, doenças ou crueldade.

Nas noites em que eu saio sozinha para capturar os Felinos Urbanos, o Arthur fica em casa, dormindo tranqüilo. E a cada um deles que é castrado, dezenas de vidas são poupadas do sofrimento das ruas que o meu próprio felino já experimentou.

Gostaria de agradecer imensamente a Confraria de Miados e Latidos por todo o apoio desde os primeiros rabiscos do projeto, em especial a Tatis.

Também gostaria de agradecer a todas as pessoas que de alguma forma, por palavras ou doações, ajudam os meus queridos Felinos Urbanos.

E, agradeço ao Arthur, que, agora deitado no sofá, adormecido, não tem noção no quanto transformou minha vida e, através das minhas mãos, mudou e mudará a realidade de tantos outros.

“Em algum lugar além do arco-iris, os céus são azuis e os sonhos que você ousou sonhar se tornam realidade”

~ Lyman Frank Baum

http://felinosurbanos.blogspot.com/

O que você realmente CURTE?

Hoje no meu facebook estavam inúmeras frases e imagens falando do Dia Mundial dos Animais e S.Francisco de Assis, o santo padroeiro dos animais.

Grande parte das pessoas nesse facebook são meus amigos do Brasil inteiro, que partilham comigo a proteção animal, pessoas que gastam seu dinheiro, tempo e coração por animais abandonados, maltratados e que já sofreram na vida.

Mas sempre existem aqueles ao redor de nós, que, mesmo vendo nossa luta diária nada fazem ou falam para ajudar não a nós, mas esses bichos que são vitimas de NOSSA espécie, que outro ser humano os colocou nas ruas e lhes infligiu tristezas, animais que SIM, são responsabilidade de toda a sociedade.

Pessoas que apertam o CURTIR no facebook, diante da foto de um bicho debilitado, na foto da pessoa que pede ajuda para cuidar de um caso de atropelamento, de uma mãe e seus filhotes, animais esses que chegaram as mãos do protetor, na grande maioria das vezes, por pedido de terceiros, esses mesmo que depois que o animal é resgatado, viram as costas e acham que fizeram a melhor boa ação do mundo, que todas as necessidades do bicho já foram resolvidas, ignorando que agora existem contas a serem pagas, MUITAS contas, para alguém que já cuida de inúmeros.

Um protetor de animais já começa perdendo, em desvantagem.

Geralmente as pessoas próximas não entendem e não dão apoio a sua escolha de salvar essas vidas. Não existe – ao contrário do que muitos possam achar – uma arvore de dinheiro crescendo no quintal. O dinheiro de cada saco de ração, cada vacina e cada castração veio suado, sai do orçamento familiar, já que na realidade poucas pessoas doam para essa causa de uma forma balanceada com o número de animais ajudados. O protetor não é alguém desocupado, são pessoas comuns, com suas profissões, compromissos e problemas, mas que simplesmente não se mantém inúteis em relação ao sofrimento alheio.

Os protetores sérios e honestos que eu conheço são ligados a outras causas, como doação de sangue, brinquedos para crianças carentes, roupas para idosos e alimentos para desabrigados. São pessoas que não toleram nenhum tipo de preconceito, que enxergam negros, pobres, ricos ou homossexuais como o que são, acima de tudo: pessoas.

Nunca fui obrigada a ajudar bicho algum. E os protetores, de verdade, aqueles que não possuem nenhum distúrbio de colecionismo, também. Mas hoje em dia eu não consigo mais fechar meus olhos e me colocar em um alto patamar, acima de tudo e de todos, achando que moro dentro de um aquário de refrigerante cor-de-rosa e que o mundo é perfeito e que eu não preciso fazer a minha parte.

Para mim é deprimente e desanimador que a grande maioria das pessoas ao meu redor ignora a Guarda Responsável até para os seus. Não quer cuidar de bicho de rua ou doar monetariamente? Sem problemas. Mas faça o favor de zelar integralmente pelo seu e não vir mais tarde me contar os resultados da sua irresponsabilidade, pois, ao contrário do que possam pensar, eu não tenho nada a ver com isso. Os nossos e os que passam por nós estão castrados, seguros e felizes.

Eu não posso salvar as crianças aidéticas da Africa, não posso salvar aqueles que eu amo de ter um câncer, não posso nem ao menos distribuir cestas básicas todo o dia para todos que tem fome. Mas posso ajudar um bicho. Eu pude dar a eles carinho, amor e cuidados e uma promessa CUMPRIDA de uma vida finalmente digna. E agora me concentro em castrá-los e garantir que filhotes estejam a salvo de vir para este mundo.

Nesse dia mundial dos animais, você fez algo além de postar a oração de S.Francisco em seu mural? Ou colocar fotos de animais fofinhos? Você alguma vez na sua vida ajudou um bicho necessitado ou, pelo menos hoje, doou para alguma ONG séria, alimentou um animal de rua ou a menos se abaixou para oferecer uma tigela de água a um cão abandonado e sedento?

O botão CURTIR não ajuda em nada, ao contrário do que possam pensar.

Doações monetárias ou de ração não chegam a casa de nenhum protetor.

Aquela gata que foi chutada, prenhe, no meio da rua, ainda estará lá para morrer.

Os filhotes abandonados dentro da caixa à beira do rio, com frio e fome, não serão magicamente teletransportados para um local seguro.

O dia mundial dos animais para nós é todo dia. Todo dia o nosso coração se reparte, nossos centavos são contados e nossas esperanças são destruídas ou reconstruídas de acordo com o que testemunhamos no ser humano. Assim como não precisamos  ser bons e justos com o próximo somente no Natal, ajudar um animal não precisa de uma data no calendário.

Só precisa de empatia. Só é necessário colocar-se no local do outro, seja pobre ou bicho.

Só precisamos imaginar o quanto aquela dor alheia seria sentida em nossa própria pele.

Precisamos levantar da cadeira, desligar o computador e fazer algo além de apertar em um simples botão diante do sofrimento alheio.

Precisamos esquecer o botão CURTIR e pressionar o botão AGIR em nossos corações.

A todos os meus queridos amigos protetores ou não, aqueles que sempre me presentearam com palavras de carinho e apoio, que comigo torceram por finais felizes, que esse seja mais um ótimo dia os animais e daqueles de quem, VERDADEIRAMENTE, os amam.

Amor & Miados

Amar gatos é apreciar demonstrações sutis de afeto, carinho e devoção.

É se apaixonar por miados e compreendê-los. É adormecer com ronronados sobre o peito.

É não se incomodar com patinhas andando por cima de nós na cama, ou com uma bola quente e peluda que pula em nosso colo, clamando território.

É sentir cócegas e sorrir com bigodes em nosso rosto e com o nariz gelado em nossas bochechas.

Amar gatos é ter a certeza de que nossa cama nunca mais será verdadeiramente só nossa.

A maioria das estórias de amor com gatos se inicia nas ruas. Com um abandono, uma violência, uma crueldade. Amar gatos é ajoelhar-se ao chão para catar um filhote faminto, um adulto atropelado ou uma caixa com uma mamãe e vários bebês ao relento. E mesmo nesses piores começos, se existe amor de verdade, haverá um final feliz.

Amar gatos é relevar preconceitos de gente que não sabe amar nada além do obvio. E defender nossos pequenos contra eles.

Amor responsável de dono de gato é entregar o felino para castração, desejando que sua estória triste não se repita, desejando uma boa saúde e mais anos de qualidade. É mantê-lo dentro de casa, a salvo e seguro. É pesquisar, estudar e oferecer sempre o melhor possível.

Quem ama gato ama todos. Vira-latas, os de raça. Aquele achado dentro da lixeira ou o bonitão com pedigree. Quem ama gatos de verdade não os explora. Não os prostitui, vendendo seus filhotes e sua alma para corrupção e ganância.

O amante de gatos se indigna quando outros não os tratam com a majestade que merecem.

Gatos, para quem realmente os ama, nunca deveriam ser vitimas.

Amar gatos é sempre querer para eles um mundo melhor e agir para que isso seja concretizado.

O meu coração se enche de amor e miados. Foi um gato que me salvou de uma profunda tristeza. Foi um gato que tirou das minhas mãos as amarras de comodidade e me fez querer anular em outros a tristeza e dores que ele sentiu. O meu gato lindo, feliz e seguro não é o único que merece uma família e uma vida digna.

A felicidade que o meu gato me traz deve ser estendida a quantos outros possíveis.

Quem ama gatos os ama por completo, é uma entrega mutua e verdadeira.

É um estado de graça e privilégio.

E eu o experimento todos os dias.

Video - Somos Apaixonados por Gatos!

Era um domingo frio…


Era um domingo frio em Nova Friburgo, como outro qualquer. As mesmas pessoas que sempre acordam cedo foram à mesma feira de sempre e compraram as mesmas bananas, as mesmas maçãs, os mesmos alfaces e os mesmos tomates. Tudo o mesmo.

Ali conversaram com os feirantes, trocaram receitas, voltaram para casa e prepararam seus almoços de família. Como todos os domingos.

Na feira, o tempo continuou frio e chuvoso. E o domingo acabou. O dia seguinte foi a segunda e a vida recomeçou.

Essa, certamente, foi a história que as pessoas que passaram por ali naquele dia registraram em suas tão vagas memórias…

Tudo realmente teria sido assim não fosse uma criatura que resolvera colocar dois caixotes de madeira no meio daquela multidão. Em um, uma gatinha mãe com seus seis filhotes de cerca de 40 dias. Na outra, outra mãe, muito parecida com a primeira, com seus 5 filhotes de pouco mais que 4 dias. Pareciam irmãs, pareciam viver na mesma casa… A pessoa abriu os caixotes, foi embora e os deixou ali. Talvez para tentarem sua própria sorte.

As outras pessoas continuaram comprando suas maçãs e bananas e trocando receitas para o almoço de família. As mães, assustadas, nem se movimentaram: continuavam amamentando seus filhotes, tentando garantir-lhes um mínimo de dignidade, a mesma dignidade que nenhum daqueles seres humanos foi capaz de lhes oferecer. Era preciso preparar o almoço.

No meio da manhã, uma grande gritaria, alguns correram para se afastar, uns gritos estridentes, certamente de pânico e de horror!! Um cão, também desses que vagam pela feira esperando que caia algum alimento debaixo das barracas, viu os dois caixotes, que nenhum ser humano havia visto. Ele atacou as mães e os bebês, talvez por instinto, talvez por fome, mas certamente não por covardia.

Uma mãe e um bebê não resistiram. E ali permaneceram apenas uma mãe com dez bebês apavorados, morrendo de medo, além da fome e do frio. E as pessoas continuaram comprando suas maçãs e suas bananas, como se nada houvesse acontecido.

Sim, essa grande família foi acolhida pela Confraria naquele mesmo domingo frio. Estão todos sendo alimentados, tratados com o carinho e a dignidade que merecem. A mãezinha, batizada de Patrícia, e cinco bebês ficaram em Friburgo, com a Evelyne e os outros cinco foram para São Paulo com a Tatis e foram carinhosamente acolhidos e tranquilizados pela Yavanna.

Agora, eles já conhecem uma cama quentinha, mamam até dormir e ronronam o tempo todo. Já sabe brincar com seus brinquedinhos e escalam seus arranhadores.

E os seres humanos, hoje, uma semana depois, foram à feira. Compraram maçãs, bananas, alfaces e tomates. E voltaram para casa para prepararem seus almoços de família.

E o tempo? Permanece frio por aqui.

Evelyne Ferreira

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