“E ninguém tem nada com isso.”
Essa é uma das frases que mais permitem que injustiças e desgraças aconteçam.
É com uma frase e pensamento desses, que as pessoas se permitem escutar a esposa do alcoólatra sendo espancada todos os dias, em silêncio.
É assim que a criança é abusada sexualmente pelo parente, todos na família sabem, mas ninguem se manifesta.
É assim que testemunhamos o bullying cruel do negro, da moça pobre, do garotinho de cabelos crespos que não usa roupas de grife.
Com esta frase nos afastamos de nossos papeis como cidadãos, desligamos a justiça, igualdade e compaixão em nosso peito e mente. Cobrimos nossos olhos com um manto negro do comodismo.
O “não é comigo” se transforma em uma bola de neve destruidora. E aquele mesmo marido que bate na esposa irá estuprar a sua filha na volta da faculdade. O pedofilo estará observando seu neto enquanto ele brinca no parquinho. Quem sofre bullying irá se vingar, atirando em pessoas na praça de alimentação da escola.
Todo os dias, pelo bem da “cordialidade”, permitimos que um conhecido explore economicamente seu animal e entregue os filhotes para o primeiro que aparecer com dinheiro, não importando seu futuro ou a ausência dele. Um veterinário, para manter clientes, irá concordar em ser cúmplice de um criador de fundo de quintal, ao invés de falar sobre castração. Alguém que se diz protetor, entregando animais sem castrar, para o primeiro que aparecer. Alguém inventando raças para animais mestiços, apenas para livrar-se deles mais rápido. O nosso parente que mantém um macho com acesso às ruas e marcado de brigas, mas não falamos sobre esterilização e posse responsável, para que não construam “opiniões a nosso respeito”.
Quando dizemos que o problema não é conosco, não sentimos pena da caixa de filhotes recém-nascidos e deixados na rua. Não colocamos sequer um prato de água para a cadela abandonada prenhe na rua. Passamos por cima do gato atropelado morrendo em nossa calçada.
Mas existem pessoas que não se calam. Você mesmo deve conhecer alguém. Eles são chamados de chatos, radicais, aqueles que “vivem se metendo”. São essas mesmas pessoas que estão em um multirão, entregando comida para os desabrigados, que fazem passeatas contra a homofobia, que tiram do seu salário o valor de uma castração ou cuidados para um animal carente, que com certeza outro conhecido seu, foi responsável por estar nas ruas.
Eu sou chata. Não me calo, não me convenço de que as coisas não mudam.
Mesmo que a passos tão pequenos nesta minha cidade, neste meu país, o fato de eu – e várias outras pessoas – não se conformarem é o que faz com que as BOAS mudanças aconteçam.
É o nosso grito, nossa teimosia. Cabeças duras e mãos calejadas, o coração palpitando e os olhos focados na pequena luz que surge no fim do túnel da ignorância. Cada faísca que brilha é uma vitoria que vai além de nós mesmos.
O futuro é o que construímos a partir de nossos desejos, sonhos, das injustiças que testemunhamos e sofremos, que destroem nossa alma aos poucos.
Faça o que puder, nada é pequeno demais, nenhuma palavra para o bem é perdida.
Ficar de braços cruzados não é uma opção.
“Faça aquilo que é sua obrigação e um pouco mais. O futuro será um lugar melhor.”
Andrew Carnegie














