Em setembro dei inicio ao projeto Felinos Urbanos, baseado nos preceitos da Captura, Esterilização e Devolução de gatos ferais, abandonados ou semi-domiciliados pelas ruas da minha cidade, como forma efetiva e humana de controle populacional.
Depois de 4 anos resgatando e entregando gatinhos para doação responsável, participei de um seminário na Humane Society do Canadá que abordava o C.E.D não somente em Toronto mas em vários outros países do mundo e como ele é bem sucedido para a diminuição do sofrimento desses animais. E é desses animais, não-castrados e que vagam por aí, que descendem os meus resgatos.
Diante dos meus recursos limitados , tanto financeiros quanto de mobilidade – eu nem ao menos tenho carro – o C.E.D se tornou a melhor opção para essa cidade atrasada que não oferece gratuita ou a baixo custo, onde cães e gatos são negligenciados e abandonados as dezenas. O que gasto para castrar 4 gatos em um mês, é o mesmo – ou até menos – dos custos para um resgate e doação de um único bichinho.
O projeto Felinos Urbanos iniciou-se com muito estudo, a doação valiosíssima de uma gatoeira, conversas com veterinários competentes, com a reformulação de toda uma identidade, através do apoio da Confraria e com a minha teimosia e incapacidade de aceitar que algo que dá certo em várias cidades do mundo, que dá certo em SP, RJ e Santos não poderia acontecer aqui pela mentalidade pequena de algumas pessoas.
Ontem completamos 12 animais atendidos. 12 animais que foram capturados, esterilizados e devolvidos, com manejo humano e de alta qualidade, que não irão mais trazer nenhum filhote para sofrer em São Luís, que não morreram de fome, maus-tratos ou debaixo das chuvas que começam em dezembro e duram seis meses.
A #10 é uma gata feral de aproximadamente 2 anos. Ela vem sobrevivendo junto com seus filhotes, que coloca no mundo ininterruptamente, em um matagal perto da minha casa. Demorou 3 noites para que ela finalmente entrasse na armadilha e pudesse ser esterilizada. Durante essas noites, em que me sentava do outro lado da rua, de madrugada, o Arthur me olhava lá do alto do meu quarto, pela janela, sentadinho na mesa de estudos.
E com essa cena, comecei a pensar que ele, seguro, feliz e saudável em nosso apartamento, muito muito amado, era minha única testemunha daquela pequena vida que estaria prestes a mudar, justamente por causa dele.
A #10 e outros que já passaram e irão passar pelo Felinos Urbanos compartilha com o Arthur um começo difícil, justamente naquela mesma rua. A mãe dela também morreu atropelada, no jardim do meu prédio, depois de passar dias com o osso do quadril exposto, em dores. Feral, como a filha, foi impossível ajudá-la.
Alguns gatos doentes e feridos já passaram pelo projeto, como o #9, um gato macho com uma pata dilacerada por brigas, a #5 que foi espancada por crianças que mataram os filhotes em sua barriga e a ultima, #12, que estava em inicio de piometra e com certeza morreria de infecção.
Esses gatos provavelmente nunca seria ajudados. São os inúmeros animais que as pessoas ignoram diariamente. São os bichos que se escondem debaixo de carros e em terrenos baldios, pelo temor que sentem dos seres humanos. Nascidos entre latas de lixo e comendo restos, esses gatos em nada diferem do meu. Se não é possível salvar todos, se não é possível anular a vida de sobreviventes que foram forçados, por alguma pessoa, a encarar, que essa sobrevida seja mais tranqüila, sem filhotes ou brigas para reprodução, sem o stress de uma prenhez ou caça para alimentar até 30 bocas durante um ano e vê-los partir cedo demais, por acidentes, doenças ou crueldade.
Nas noites em que eu saio sozinha para capturar os Felinos Urbanos, o Arthur fica em casa, dormindo tranqüilo. E a cada um deles que é castrado, dezenas de vidas são poupadas do sofrimento das ruas que o meu próprio felino já experimentou.
Gostaria de agradecer imensamente a Confraria de Miados e Latidos por todo o apoio desde os primeiros rabiscos do projeto, em especial a Tatis.
Também gostaria de agradecer a todas as pessoas que de alguma forma, por palavras ou doações, ajudam os meus queridos Felinos Urbanos.
E, agradeço ao Arthur, que, agora deitado no sofá, adormecido, não tem noção no quanto transformou minha vida e, através das minhas mãos, mudou e mudará a realidade de tantos outros.

“Em algum lugar além do arco-iris, os céus são azuis e os sonhos que você ousou sonhar se tornam realidade”
~ Lyman Frank Baum
http://felinosurbanos.blogspot.com/